segunda-feira, 2 de março de 2026

 A completa deterioração das relações trabalhistas na Prefeitura de Osório


O poder executivo de Osório, em associação com a Câmara dos Vereadores da cidade e o Tribunal de Contas do Município, estão se especializando em precarizar o serviço público. Entra gestão e sai gestão, trocam os partidos mas as coisas não mudam, parece haver uma determinação para acabar com o bom atendimento das demandas da população. A cada ano surge uma novidade pior para os servidores municipais. Retirada de direitos, achatamento salarial, contratação de servidores temporários no lugar de efetivos. Há doze anos sou concursado como professor na cidade e as condições de trabalho estão cada vez piores, meu salário também parece sempre diminuir.

 Há alguns anos, a administração  passou a usar uma nova forma de contratação de servidores para a  educação, legalmente permitida pelas últimas reformas trabalhistas, chamam de “prestador de serviço credenciado”, mas são conhecidos na rede municipal de ensino como “credenciados”. São professores desempregados que por estar vulneráveis, em desespero atrás de algum dinheiro, aceitam trabalhar como horistas. Ganham por hora trabalhada. Assinam contratos que reafirmam mensalmente que não há nenhum vínculo empregatício entre a prefeitura e o trabalhador. Esse tipo de “acerto” é o mais barato, obviamente, para prefeitura e é o próprio Tribunal de Contas do Município que está incentivando o executivo a contratar dessa maneira vil. A pessoa que se sujeita a essa forma de contratação não tem direito a folga semanal remunerada, muito menos férias. Nem mesmo nos dias em que estão doentes podem faltar se não quiserem ter suas horas descontadas do salário. Os dias não trabalhados não são contados nem para a aposentadoria, isso significa que a cada ano, esses profissionais contam somente cerca de 200 dias de contribuição para o INSS. Não são nem concursados estatutários, nem CLT, estão num limbo jurídico. Aos poucos, a prefeitura está trocando seus funcionários públicos por esses prestadores de serviço sem direitos. Na escola em que trabalho, dos 52 profissionais, 9 já têm esse “não vínculo” com a prefeitura, alguns “não vinculados” há anos. Suas funções vão desde acompanhar os alunos de educação especial (“monitores de AEE”) até fazer oficinas de arte (“oficineiros”). No entanto, acabam sendo usados para qualquer tarefa que for necessária na escola que não tenha ninguém específico para fazer. Desde aquelas tarefas mais comezinhas como arrumar depósitos, organizar arquivos, atualizar os inventários de bens, decorar corredores, até substituir professores ausentes temporariamente por doença ou mesmo assumir permanentemente como professor itinerante ou alguma turma que não tenha professor. Eles ganham uma fração do que um professor nomeado ganha, mas realiza as mesmas tarefas, muitas vezes há anos. 

A situação até aí já era bizarra, mas esse ano mal começou e os contornos já são surreais. Os três auxiliares de serviço que fazem a faxina, os serventes da escola, pediram para sair. Um assumiu outro contrato que ganhava um pouco mais, como operário. Outra se aposentou. Uma última pediu transferência para escola mais perto de sua casa. O diretor da nossa escola, ao perguntar à secretaria como faria a limpeza sem servidores especializados, foi instruído a perguntar aos credenciados se não fariam uma hora a mais por dia para faxinar banheiros, salas e corredores. Alguns se interessaram, pois seria um dinheirinho a mais no final do mês. No entanto, a surpresa foi grande, a prefeitura não está disposta a pagar mais pelo serviço. A hora extra seria anotada para formar um banco de horas, assim, esse profissional de segunda classe, poderia finalmente ficar em casa quando doente sem ter seu salário descontado. Mesmo esses profissionais acostumados às humilhações inerentes a sua subcontratação ficaram espantados com a proposta vil do executivo municipal: A proposta é que trabalhem de graça, que façam o favor de limpar a escola de cabo a rabo todos os dias por amor. 

Os mais heróicos profissionais da escola são exatamente os credenciados. Admiro especialmente o trabalho dos monitores de alunos que necessitam de Atendimento Educacional Especializado (AEE). O mais comum é que tenham que explicar como se escreve o nome para uma criança que nem está entendendo o que é uma escola ou o que está fazendo ali. Mas, em muitas ocasiões, como aconteceu hoje na escola em que trabalho, esses professores precisam estar preparados até para se defender de agressões físicas de adolescentes em surto. E isso tudo com amor, compreensão, cuidado e até alegria. Após as agressões, a profissional foi ao postinho de saúde fazer um exame de corpo de delito junto com a adolesente agressora e, na saída, ambas atendidas e medicadas, abraçaram-se. Não consigo pensar em exemplo maior de comprometimento e fé na educação. A criança pegou atestado de uma semana, para se acalmar. Já a professora amanhã vai estar de novo na escola, ainda que esteja toda roxa, com marcas de mordida e tesouradas que levou pelo corpo e abalada psicologicamente, como realmente está, porque se pegar uma atestado médico, não vai ser remunerada, e ela tem filhos para alimentar e um aluguel para pagar e a prefeitura não pretende pagar sua ausência.

Essa não é a primeira ou a segunda vez que a prefeitura surge com novidades para economizar com a folha de pagamento. O concurso que fiz foi de somente 20 horas semanais, como são os concursos para professor nas cidades do interior, pequenas escolas, poucos alunos, só um turno basta. Mas, como qualquer professor em Osório, que há muito já não é uma cidade pequena, sempre trabalhei dobrado, 40 horas, e a prefeitura dobrava meu salário. Ou seja, eu ganhava 100% a mais porque trabalhava 100% a mais. Escolas grandes, muitos alunos, aulas pela manhã e à tarde, trabalhei assim e recebi assim durante oito anos. Em 2022, já com o salário achatado pelo governo federal que impediu reposição inflacionária e promoções na carreira do funcionalismo público durante os quase dois anos da pandemia, em abril, do nada, a secretaria de educação resolveu, sem prévio aviso, acabar com meu “desdobramento”. Ou seja, de uma hora para outra me disseram que eu ia passar a ganhar metade. Segundo eles era justo, porque eu só precisaria trabalhar 20 horas, um turno. Reclamei da brutal diminuição salarial, tenho filhos para criar, contas a pagar, não trabalho por esporte. Com metade da remuneração eu teria que escolher entre morar numa casa ou comer. Depois de muito choro e mendicância, a prefeitura me ofereceu uma “ótima” oportunidade, já que sou um “bom professor”, de trabalhar na mesma escola, com as mesmas turmas que já trabalhava, 10 horas, e, noutra escola, a 35 km de distância, outras 10 horas para completar minha carga horária de 40 horas, mas não com meu salário desdobrado em 100%: Agora eu seria contratado nessas 20 horas adicionais com um salário bem menor daquele que estava habituado. Além disso, teria que passar por um estágio probatório, para provar que eu sou realmente bom professor. Segundo me informaram na secretaria, não eram eles os vilões, a me atirar na pobreza, mas sim uma exigência do Tribunal de Contas do Município, de novo. Desesperado, aceitei a diminuição salarial. Agora é assim, nas 20 horas da manhã eu sou um professor concursado, tenho estabilidade no emprego, 30 anos de experiência, tenho várias promoções porque já estou na rede há 12 anos, remuneração de pós graduado, não preciso provar nada para ninguém, etc. Já nas 20 horas da tarde sou um professor iniciante, preciso ser avaliado duas vezes por ano para ver se presto mesmo, recebo remuneração de recém formado na graduação. 

As bizarrices injustas vão se acumulando e se normalizando no atendimento das escolas do município de Osório. Aparentemente, aqueles que têm um bom Q.I. (Quem Indica) têm uma remuneração melhor e as orientações de economia na gestão pública do Tribunal de Contas não se aplicam. Esses privilegiados também não precisam passar por avaliações semestrais em estágios probatórios que nunca acabam. Muitos profissionais nomeados da escola em que trabalho ainda ganham o desdobramento, têm seus salários dobrados em 100%, com todas as promoções da carreira, e não precisam mendigar todos os anos um novo contrato. Perguntei ao secretário de educação qual era o critério para concessão do desdobramento? Pelo que entendi até agora, a justificativa é subjetiva, deve ser algo como os bonitos ganham e os feios não.

Concluindo, então, temos três classes de professores nas escolas de Osório: 

  1. Os concursados que têm todos os direitos: estabilidade, promoções, salário digno, aposentadoria integral aos 50 anos, as mulheres, e 55, os homens. 

  2. Os contratados meia boca: Não tem estabilidade, não tem promoções, o salário é de iniciante, mas pelo menos recebe nas férias, finais de semana e se aposentam aos 62, as mulheres, e 65, os homens. 

  3. Os que não tem nenhum direito: nem férias remuneradas, nem folga semanal remunerada, nem estabilidade no emprego, não podem ficar doentes, precisam trabalhar 3 anos para contar 2 para aposentadoria que vai ser uma merreca, mas o mais provável é que morram antes, porque não ganham insalubridade nem periculosidade apesar de topar qualquer parada que aparecer na escola inclusive limpar banheiros ou precisar conter um adolescente grande, forte e surtado.

O mais incrível é que muitas vezes, esses professores que não tem direito a nada, são melhores e dão uma aula muito mais atualizada daqueles concursados com direito a tudo. Eu pergunto para esse judiciário do Tribunal de Contas do Município: Tribunal não tinha que procurar ser justo? As contas andam tão longe assim da justiça? Eu pergunto ao legislativo da Câmara Municipal: Já está na hora de fazer uma revisão nas leis de contratação de professores, não acham? Eu pergunto ao executivo da Secretaria de Educação e ao Gabinete do Prefeito? É de propósito esses contratos injustos ou vocês estão distraídos aí e não estão sabendo muito bem o que acontece no chão das escolas?



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

 Quincas Borba, dissonância cognitiva e os esportes  


“O melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão”.

Machado de Assis


No ano de 1839, na contagem de tempo dos brancos europeus, nasceu no Rio de Janeiro, na comunidade do Morro do Livramento, um casal negro de gêmeos. A menina morreu logo em seguida, mas o menino vingou e lhe deram o nome de Joaquim Maria em homenagem a seus padrinhos de batismo. O sobrevivente tinha uma irmã maior, de seis anos, que morreu logo em seguida também. O Brasil ainda era uma monarquia escravocrata, há poucos anos tinha se independizado e assumido uma dívida impagável de Portugal com a Inglaterra. O Morro do Livramento ficava em frente ao Cais do Valongo, local onde desembarcavam e eram imediatamente vendidas como escravas pessoas que haviam sido recém sequestradas na África. Como Dom Pedro I tinha abdicado do trono e seu filho, Dom Pedro II, ainda era menor de idade, o país era governado por regentes da corte. A instabilidade política devido a situação era grande, revoltas em muitas províncias ameaçavam a unidade do Império: Revolução farroupilha, Revolta dos malês, Cabanagem, Balaiada, Sabinada. As perspectivas do guri eram péssimas, não só pelas questões sanitárias que faziam a mortalidade infantil ser altíssima ou pela fragilidade da unidade nacional, mas também por que Joaquinzinho nasceu muito antes do fim da escravidão: antes da lei do ventre livre (1871), da lei dos sexagenários (1885) e antes da lei Áurea (1888). Muito provavelmente testemunhou naquele cais, pertinho de sua casa, leilões de gente acorrentada com a mesma cor de sua pele, tentativas de fuga e até surras de chicote. No entanto, teve uma sorte e tanto: seu pai era um mestiço escravizado mas já estava alforriado e sua mãe era branca vinda da ilha de São Miguel no arquipélago dos Açores, território português na costa da África, ou seja, Quinzinho já nasceu com documentos de um homem livre. Além disso, seus pais, ambos, sabiam ler e escrever, coisa raríssima para sua condição social naquela época, graças à patroa dos dois, Dona Maria, que se dispôs a ensiná-los e apadrinhou também o bebê. O guri tinha um quarto de sangue africano, mas era “de cor”, como se dizia, cresceu como agregado na casa da rica madrinha. Com a alimentação garantida e educação católica, única religião permitida por lei no Brasil imperial, o menino cresceu e se tornou coroinha nas missas que eram rezadas em latim. Fez grande amizade com o padre que percebeu sua agilidade mental e começou a lhe ensinar a língua latina. Desde muito jovem, mesmo sendo epilético e gago, era uma esponja de conhecimento, foi alfabetizado em casa e tinha acesso à livros na casa da madrinha e com seu amigo do clero. O matricularam numa das primeiras escolas públicas que surgiram, seus documentos o qualificavam para tal. Certamente penou muito bullying, pois seu fenótipo o denunciava como “inferior”. A escola não foi uma boa experiência, logo abdicou desse direito, já estava além, não encontrava ali uma fonte de conhecimento pertinente. Ficou órfão de mãe aos dez anos, precisou se mudar com o pai e começar a trabalhar. Conta a lenda, nunca comprovada, que seu primeiro emprego foi numa padaria onde o padeiro era francês e o menino letrado se divertia pedindo ao migrante que declinasse os verbos de sua língua natal. De onde o guri, realmente, tirou esse conhecimento não se sabe bem, mas o fato é que tal treinamento se tornou muito útil para a criança, pois francês era a língua oficial da ciência e dos correios, a internet daqueles tempos, no mundo todo, e ele dominava. Se tornou um autodidata, buscava o conhecimento que lhe interessava sozinho, era um rato de bibliotecas. Aos quinze anos, Quinca publicou seus primeiros sonetos e contos. O menino negro prodígio impressionava a comunidade intelectual que lhe abria portas para clubes literários e rodas eruditas. É preciso lembrar que nem vinte por cento da população sabia ler ou escrever português e o percentual negro era muito menor. O tupi, língua ágrafa dos povos originários do Brasil, apesar de ter sido proibido de ser falado no país quase um século antes numa tentativa totalitária de apagamento da cultura nativa, era uma das mais faladas na capital imperial pelo povo pobre, indígenas e africanos. “Nheengatu”, como o tupi era conhecido, a língua geral de comércio dos povos amazônicos, foi adotada pelos jesuítas da Igreja Católica para catequização nos tempos coloniais, foi por eles primeiro registrada em escrita e por isso se espalhou rapidamente, não só na Amazônia. Carioca, por exemplo, do tupi “kari oka”, quer dizer a casa do branco ou, uma tradução mais apropriada, onde os brancos moram. No entanto, a elite falava o português e lia jornais e revistas nessa língua, o adolescente queria estar entre eles, convivendo com a cultura europeia. Assim como hoje em dia os adolescentes pobres querem ser jogadores de futebol para usar grossas correntes de ouro e andar de Porsche, Quinzinho queria estar entre os que batiam, não entre os que apanhavam, afinal, era um homem livre apesar da cor de sua pele. Bastava se esforçar, insistiam em dizer, lhe era permitido ascender socialmente. E o guri se esforçou. Lia os clássicos para entender tudo o que falavam, percebia-se capaz de jogar aquele jogo. Arrumou emprego na imprensa aos dezessete, como tipógrafo e revisor, e lá encontrou um protetor, "de cor" como ele, que o incentivava a escrever literatura, um técnico que entendia bem do “metiê” das letras. A sua proximidade física com os grandes pensadores brasileiros da época ajudava muito, Quinca tinha consciência disso. Era bom morar na capital do país, era ali que a intelectualidade vivia e trabalhava, era ali que os melhores jogadores da elite erudita estavam, era ali que as melhores disputas se davam. No início, na sua própria escolinha literária, o rapaz escrevia o que seus mentores queriam ler: poemas e histórias românticas água com açúcar, com finais felizes. Conquistou o seu espaço no mercado editorial mesmo não tendo dinheiro para imprimir um livro próprio. Escrevia novelas e contos para revistas e poemas em jornais, até mesmo óperas ousou escrever para o Teatro Nacional. Conforme foi ganhando estofo de erudição e confiança, passou a agir como titular do time da elite adulta: ser irônico, com um humor ácido, mas fino e sutil, debochando da sociedade da época. Estamos falando, claro, da vida do mais famoso escritor brasileiro, Joaquim Maria Machado de Assis. 

Machado de Assis tinha acesso aos dois lados da sociedade morando no Morro do Livramento na capital imperial. Um lado era o de seus pais e vizinhos, despossuídos negros e indígenas, escravizados na ponta do chicote, acorrentados, a população que falava tupi, mantidos propositalmente iletrados, excluídos, proibidos de tudo. Contar o tempo de outra forma que não desde o nascimento de Jesus era proibido, praticar outra religião que não a católica era proibido, sambar era proibido, lutar capoeira era proibido, falar tupi ou qualquer outra língua que não o português era proibido, até mesmo estudar era proibido para os negros no Brasil. Qualquer coisa que lembrasse as culturas africanas ou indígenas era punido, vilipendiado, desdenhado. O outro lado era o de sua madrinha e seus mentores, da elite branca europeia, que lia e falava português, donos dos meios de produção, os opressores alfabetizados e incluídos. Para esses, tudo era permitido, inclusive escravizar, chicotear, estuprar ou proibir os outros de existir. O jovem Quinzinho, com a cor e cabelos do fenótipo oprimido, se esgueirava discretamente entre os opressores tentando não ser percebido ou, quem sabe até, agradá-los. Não queria ser chicoteado, estuprado ou morto. Mas, conforme foi amadurecendo, quando se sentiu seguro de suas capacidades na elaboração de textos, passou a escrever sobre a realidade em que vivia. Começou a cutucar vespeiros delicados e caros para os dominantes. Ele lia, citava e parodiava, abundantemente em suas obras, literatura de autores clássicos conhecidos dos eruditos, inclusive em outras línguas. Nunca esquecia de agradar o clero também, gostava de lembrar passagens bíblicas nas coisas que escrevia. Também não se omitia de comentar aqueles livros de pensadores que recém estavam sendo lançados e discutidos no jornalismo daqueles tempos. Machado era um osso duro de roer pelos intelectuais brancos da época que o apelidaram de “Machadinho”, claro que para diminuí-lo. O rapazote negro não se intimidava, usava as ferramentas de debate autorizadas pela elite para expor as mazelas sociais criadas por ela mesma. Escrevia em português com vasto e culto vocabulário, mas compreensível até por adolescentes. Construía o texto com prosa clara mas sofisticada, ridicularizava os opressores de forma irrefutável, parodiava textos conhecidos com escárnio, invertendo seu sentido original, não deixando margem alguma para contra-argumentos. Machado de Assis nunca saiu da Guanabara (em tupi: seio de onde brota o mar), região onde hoje está o estado do Rio de Janeiro, não teve ensino superior, no entanto, sua genialidade não permitia contestá-lo no campo da literatura e as letras escondiam sua cor e origem social. Suas carências compensava com esforço. Fazia uma análise da conjuntura daquele tempo com precisão cirúrgica, despindo a hipocrisia da classe dominante e expondo a indiferença das elites cariocas com os excluídos em detalhes sórdidos. Escrevia sobre ciúmes, traições e triângulos amorosos entremeados com forte crítica à diferença social com tal sutileza que o cidadão da elite daqueles tempos que fosse desatento e alienado das discussões da época nem percebia que ali, naquela galhofa, havia um poderoso debate político. Machadinho incomodava quem percebia suas reais intenções.

Eu, diferente de você que chegou até o terceiro parágrafo desse texto, nunca fui um bom leitor, confesso. Ao contrário, odiava as leituras obrigatórias da escola. Quando tinha doze anos, na antiga sétima série do primeiro grau, fui forçado a ler “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Que sofrimento! Era uma leitura chatíssima, enfadonha e interminável. Eu fazia várias pausas para comer uma bolacha ou tomar um Toddy na cozinha. Saía do quarto para respirar um pouco. Não entendia as ironias machadianas, muito menos percebia suas paródias de cenas acontecidas em outros romances. As citações de outras obras eram para mim somente um obstáculo na leitura, um ruído desagradável, não percebia humor em nenhum lugar. O livro era só mais um tema de casa, como uma lista de exercícios de matemática, um estorvo que me impedia de passar as tardes andando de bicicleta. No meio do livro já podia resumir com uma breve frase toda história: Bentinho não sabe se é corno. A professora de português nos alertava toda aula que o prazo para leitura estava se esgotando. Comecei a fazer uma leitura… como direi? Mais dinâmica! Lia uma página e pulava duas, só para ver se o tom da prosa tinha mudado. Na noite anterior à avaliação planejada, pulei de onde estava naquela amarelinha literária direto para o céu, a última página, para saber o final da história. Me senti preparado e muito aliviado em ter cumprido tarefa tão inútil. A elaborada estratégia de estudos que adotei não foi muito eficaz. Na prova, a cruel professora exigiu coisas como a descrição psicológica do personagem principal. A pergunta era irrespondível, não tinha isso no texto, pelo menos nas partes que li. Peguei recuperação. Depois, aos vinte anos, me aventurei no exterior, passei dois anos na Europa. Saudoso da língua materna, procurei livrarias especializadas em outros idiomas para comprar livros em português na capital da Holanda, Amsterdam. Para minha grande surpresa, encontrei muitos títulos de Machado de Assis, inclusive o insuportável Dom Casmurro. Desviei do autor, já o conhecia e o avaliava como péssimo. Intrigado, me perguntei porque algum holandês gostaria de adquirir aquela intragável leitura em língua estrangeira. Comprei os dois volumes de literatura brasileira mais em conta da loja: “Zoeira”, de Luis Fernando Veríssimo, porque era um autor engraçado que conhecia das colunas do jornal Zero Hora, e “Angústia”, de Graciliano Ramos, porque era o que tinha para vender por lá no barato formato de bolso. Zoeira foi fácil, rápido e divertido, me animou, me fazendo acreditar que poderia vir um dia até apreciar o hábito da leitura. Já Angústia foi para mim como Dom Casmurro, me lembrou das tarefas hercúleas e aborrecidas da escola, insuportável e sobre a mesma temática, o ciúme. Só terminei de ler a obra para não desperdiçar meu suado dinheirinho de trabalhador ilegal.

Claro que, depois que voltei ao Brasil e ao longo da vida, sempre ouvi falar bem das qualidades do texto machadiano. As citações pelas quais cruzei, como a que precede esse texto, me pareciam bem pertinentes, foram me amolecendo como crítico literário. Quem sabe eram somente avaliações apressadas de um adolescente ignorante. Fui repensando minhas opiniões a respeito e resolvi dar uma segunda chance ao autor. Numa encruzilhada da vida, cruzei com seu livro Quincas Borba, de 1891, lá Machado nos ensina; entre descrições de cantadas baratas, usurpações vis, intrigas na corte e heranças ingênuas; que a disputa por recursos para usufruir de uma boa vida nunca é leal. O autor faz uma dura crítica a sociedade aristocrática da época e já antecipa em mais de um século o atual debate sobre a meritocracia na escalada social. Seu texto é de um humor irônico angustiante, onde se percebe a piada, mas não se consegue rir. Vejo muita semelhança ao que faz o Porta dos Fundos atualmente no YouTube denunciando racismo, machismo, diferença social, homofobia e tantas outras mazelas sociais. Machado experimentou em casa as privações pelas quais passava um descendente de negros naqueles tempos. No jargão atual, usando uma expressão popularizada pela filósofa negra, feminista e candoblecista, Djamila Ribeiro, poderia se dizer que Machado tinha lugar de fala sobre a competição por um lugar ao sol na sociedade. Na obra, criou um personagem, Quincas Borba, que teria elaborado uma teoria filosófica, um tal de “humanitismo”, em que a competição e a guerra são necessárias e benéficas para se manter a vida e, acima de tudo, naturais. Obviamente, Machado estava a fazer uma paródia engraçada, um deboche irônico sobre teorias e alegações que surgiram como desdobramentos do livro A Origem das Espécies, do naturalista inglês, Charles Darwin, de 1859. 

Até Darwin, as elites justificavam as diferenças sociais ou até mesmo a escravidão com argumentos divinos: Deus quis assim. Era Deus quem ordenava os reis. Mas após o Renascimento, o argumento teocêntrico estava perdendo muito de sua força, ameaçando a ordem social. Para Sigmund Freud, médico alemão de origem judaica e “ateu convicto”, segundo ele mesmo, Darwin foi a segunda ferida narcísica na humanidade, depois de Copérnico e seu heliocentrismo. Então não somos uma espécie especial para Deus? E se entre as espécies animais não somos especiais, porque um indivíduo humano seria especial para Ele? Felizmente para as elites, surgiu um argumento antropocêntrico com verniz científico. O Ser Humano seria o próprio agente de seu sucesso. A seleção natural pregada por Darwin explicaria a diferença social: é natural que haja, os mais aptos vencem na vida. Se alguém é rico, significa que venceu as batalhas que travou para sobreviver. Mais dois séculos enrolando os pobres com falácias de um suposto darwinismo social. No entanto, Machado de Assis buscou com seu romance mostrar que esse argumento é uma distorção oportunista das ideias de Darwin. Usando, novamente, um jargão atual, criado por Leon Festinger, psicólogo americano e judeu, os protagonistas do livro Quincas Borba, todos brancos, sofrem de uma dissonância cognitiva. Tentam adaptar suas crenças meritocráticas à uma realidade obviamente hipócrita. Na obra, os ricos herdam a riqueza, por mais torpes e pouco aptos que sejam, no entanto, se acham merecedores da riqueza.  A alegoria do filósofo Quincas de que o vencedor da guerra comeria as batatas (“Ao vencido, ódio ou compaixão, ao vencedor, as batatas.”) e teria energia para manter a vida, fala por tabela do apagamento da cultura perdedora, assim como Machado observava no seu contexto histórico com a elite branca proibindo o povo de falar outra língua que não fosse português (1758), ter outra religião que não fosse católica (constituição de 1824), de dançar o samba (1851) ou de lutar a capoeira (1890).

O nome do livro de Machado, Quincas Borba, me chama muito a atenção. Quincas é apelido de Joaquim, ou seja, o personagem filósofo seria um “alter ego”, na expressão em latim, um outro eu do autor. Uma das raízes etimológicas do nome Borba é do grego “borboros”, que significa lama do fundo. Acredito que Machado de Assis estava querendo dizer que a filosofia do personagem, que mimetiza de forma jocosa as filosofias pregadas à época, é algo que o próprio autor percebia em si, a lama de fundo de sua própria trajetória. Ao mesmo tempo que se percebe agente de seu sucesso como escritor, reconhecendo mérito do seu próprio esforço, tem a humildade de admitir que só conseguiu vencer na vida porque teve a sorte de herdar muito de sua erudição. O fato de já nascer livre numa monarquia escravocata, crescer numa casa de pessoas letradas num país de analfabetos, de cruzar com tutores eruditos ao longo de sua trajetória e de ter acesso a livros quando quisesse, o colocou em uma posição muito privilegiada comparada com outros meninos negros da comunidade em que nasceu. Machado ri, debocha, ridiculariza e sapateia sobre aquela elite que se apressava em arvorar o próprio mérito na escalada social. O livro Quincas Borba é uma denúncia da farsa do darwinismo social, debate que entusiasmava os incluídos da época, diminuindo o desconforto psicológico da hipócrita e brutal diferença social. Machado admite no texto o mesmo que Isaac Newton dois séculos antes: “Se vi mais longe foi por estar em pé sobre ombros de gigantes.”

Machado de Assis não dava ponto sem nó na sua fase realista em que sua obra Quincas Borba se insere. O nome do personagem principal, Rubião, também foi cuidadosamente escolhido. O autor viveu toda sua vida durante o ciclo econômico em que o café representava riqueza no Brasil. Quem detinha os meios de produção do fruto vermelho do cafeeiro etíope, enriquecia. A classificação biológica das plantas tinha recém sido estabelecida por Carl Linnaeus e os eruditos se viam obrigados a conhecê-la. Nessa nomenclatura, a planta do café é da família Rubiaceae, ou seja, da cor do rubi, vermelho. Quincas Borba foi primeiro publicado na forma de folhetim quinzenal dentro de uma revista de moda durante cinco anos, de 1886 à 1891. Nesse ínterim, o Brasil aboliu a escravidão, proclamou a república, exilou o imperador Dom Pedro II e promulgou uma nova constituição onde se pregava a separação entre religião e estado. Em 1891, quando foi finalmente publicado em livro, Machado de Assis modificou o nome do personagem principal de Rubião para Pedro Rubião. Ou seja, Machado percebia semelhança na trajetória de seu personagem Rubião, que herda uma fortuna e rapidamente vê seu dinheiro trocar de mãos, com a de Dom Pedro II. Também se pode intuir que o livro, construído em momento tão efervescente da história nacional, parodia o próprio país. Machado era um monarquista, admirava o imperador como homem erudito e que amava o Brasil, via o império sendo usurpado por militares golpistas. Ele temia que uma eventual república poderia ser chefiada por algum aristocrata insolente daquela elite branca que denunciava. Aqui de novo percebemos nosso herói, Quinzinho, negro do Morro do Livramento, se esgueirando discretamente entre os dois lados da sociedade carioca de então: Ficar fritando na frigideira do escravocrata Dom Pedro II e o medo de cair na fogueira de algum Rubião tolo como presidente da república.  

Outras passagens do livro mostram claramente o cuidado irônico que Machado tinha ao escolher o nome de seus personagens e parodiar autores famosos invertendo o significado de cenas conhecidas. O sócio de Rubião, o usurpador que vai aos poucos tomando toda sua fortuna, se chama Cristiano. Em latim, esse nome significa seguidor de Cristo. Ora, alguém mesquinho e egoísta que planeja enganar o sócio é exatamente o oposto do que um Cristão faria que é dividir o pão e amar o próximo. Já Sofia, a mulher com quem Rubião sonha se relacionar, é uma personagem frívola e vaidosa, superficial e arrogante, mas seu nome significa sabedoria em grego. Ela era o exato contrário de uma pessoa sábia.   

Folhetim, naqueles tempos, era como as novelas da Globo de hoje em dia, vinha em capítulos, em jornais ou revistas, antes do rádio ou tv. Machado percebia a importância do folhetim, a penetração era muito maior que o livro. Os livros mais vendidos conseguiam atingir 500 cópias no Rio de Janeiro, enquanto um jornal era veiculado para milhares de pessoas todo dia. Machado era um capoeirista da palavra, fingia estar num jogo, mas treinava uma luta. Todos os dias ele escrevia e publicava uma crônica, uma novela, um conto ou algum capítulo de romance numa publicação dos brancos em português erudito. Aparentemente historinhas engraçadas para entreter, mas era a forma de lutar sem ser percebido que encontrou, se esgueirando para minar as crenças de superioridade dos brancos. Críticos negros da atualidade insistem em dizer que Machado não era envolvido com a causa dos negros e se perguntam onde está o herói negro em seus livros? E realmente não se encontra tal personagem. No entanto, também não há heróis brancos, ao contrário, os personagens brancos são sempre patéticos, infantis, dependentes, incompetentes, hipócritas, “losers” da mais alta estirpe. Verdadeiros anti heróis. 

Ao estudar a vida de Machado de Assis é forçoso constatar a influência que o autor teve de dois mentores muito mais importantes para sua formação que os demais. Ambos, devido a sua natureza, estavam longe do estereótipo de intelectual no Rio de Janeiro daquela época, uma sociedade racista e machista ao extremo. Um negro e uma mulher. 

Francisco de Paula Brito, o mentor negro, era um ativista político abolicionista, editava e imprimia livros nos fundos de sua pequena tipografia e livraria. Dava oportunidade para jovens excluídos negros, indígenas e mulheres, para publicar suas obras a preços módicos. Entre a venda de um envelope e um potinho de nanquim, imprimia folhas de alguma publicação num pequeno prelo de madeira. A editora também vendia fumo de rolo ou parafusos, chás e funcionava até tarde da noite, uma espécie de loja de conveniência que tinha qualquer coisa a qualquer hora. Foi esse senhor que primeiro percebeu a qualidade do texto de Machado de Assis e o convidou para publicar sonetos e contos nos impressos que editava. Sua atividade era conhecida da intelectualidade que para ele encaminhava pessoas interessadas em publicar obras comercialmente inviáveis. À noite, Brito organizava rodas de conversa e saraus que chamava de “Sociedade Petalógica”. “Peta” era uma gíria para mentira naqueles tempos. Os eruditos do Rio de Janeiro por lá se encontravam para ouvir lorotas e rir uns dos outros numa tertúlia inteligente bebendo e beliscando aperitivos. Machado era um frequentador assíduo da Sociedade e muito conhecido de todos, apesar de sua discrição, foi lá que ganhou o apelido de Machadinho. Entre os frequentadores do lugar estavam celebridades como José de Alencar, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Quintino Bocaiúva, Joaquim Manuel de Macedo, Olavo Bilac, Joaquim Nabuco e até mesmo o imperador Dom Pedro II. Curiosamente, o imperador era um dos acionistas da Sociedade Petalógica, contribuindo com dinheiro para o bom funcionamento das reuniões. Em retribuição, Paula Brito convidou aquele que via como o melhor escritor negro da Sociedade, Machado de Assis, para escrever uma homenagem ao ilustre acionista. O rapaz, de apenas vinte anos, aproveitou a oportunidade e o fez com excelência. O artigo sobre a Biografia de Dom Pedro II, publicado na revista quinzenal “O Espelho”, foi o primeiro trabalho de Machado que o projetou como escritor e fez surgir uma admiração mútua entre o nobre branco e o jovem prodígio pobre de cor. Depois, o artigo saiu também no jornal “O Homem de Cor”, direcionado para o público negro, editado, impresso e publicado por Brito. Se fossemos comparar com um jogador de futebol, seria como se Machado tivesse feito o primeiro gol como titular no time adulto e chamou a atenção de muitos técnicos. Outra revista que Brito publicava e Machado contribuia seguidamente era “A Marmota Fluminense”. Se tratava de folhetim de notícias verdadeiras distorcidas de forma jocosa, coisa semelhante ao que hoje lemos no jornalismo satírico da página “Sensacionalista” da internet. A formação do escritor Machado de Assis se deu nesse cadinho cultural de mentiras, lorotas, piadas, deboche e sátira inteligente proporcionada por Paula Brito que tinha essa atitude de bufão da corte como estratégia para um negro sobreviver naquele Rio de Janeiro violento do século XIX. Paula Brito foi sempre muito perseguido exatamente por sua conduta debochada e desafiadora, sofria pressões e censura de pessoas poderosas ao ponto de até atearem fogo no seu pequeno estabelecimento comercial, queimando todo seu estoque de livros, revistas e folhetins. 

Já a mulher que mentorava Machado de Assis, Carolina Augusta Xavier de Novaes, foi sua esposa por trinta e cinco anos. Portuguesa e branca, cinco anos mais velha que ele, migrou para o Brasil para cuidar do Irmão enfermo, o poeta e jornalista Faustino Xavier de Novaes, grande amigo de Quincas. Os dois se conheceram quando Machado, já com 27 anos, foi fazer uma visita ao amigo e a simpatia um pelo outro foi imediata. Carolina era muito erudita e encantava o escritor com seus conhecimentos de literatura portuguesa e inglesa. Foi através dela que Machado adquiriu tanto conhecimento de Shakespeare, autor diversas vezes citado e parodiado nas suas obras. Meu “preferido”, Dom Casmurro, é inspirado em Otelo, por exemplo. Carolina apresentou todos os clássicos portugueses, de poetas a cronistas, romancistas e novelistas, ela conhecia todos. Ajudava Machado a escrever, revisando, opinando, e passando a limpo seus manuscritos. As cartas trocadas por eles revelam grande amor e admiração que um nutria pelo outro. Era Carolina que chamava a atenção dele para a hipocrisia da elite carioca, usava como instrumento a comparação da vida do próprio Machado com a de seus amigos brancos, herdeiros ricos, da Sociedade Petalógica que ela também frequentava. Foi com Carolina que Machado atingiu a maturidade literária de sua fase realista, se encorajou para se tornar irônico e sarcástico. Como não tiveram filhos, adotaram uma cadelinha que nomearam de Graziela e a tratavam como uma filha. Era uma coisa muito estranha para época um bicho de estimação receber tanto carinho e ter cama dentro de casa. Quando Carolina adoeceu de câncer, Machado pediu para o respeitado médico Miguel Couto, homem de letras e frequentador da Sociedade Petalógica, que fizesse o possível para que não sofresse. Com o falecimento de sua esposa querida, Machado entrou em profunda depressão, pouco saia de casa, mas ainda cuidava com total dedicação de sua cachorrinha.

O grande mentor de Machado, Paula Brito, faleceu quando Quincas contava apenas vinte e dois anos de idade. No entanto, a Sociedade Petalógica não desapareceu com sua morte, continuaram a se encontrar em reuniões organizadas pela viúva de Brito. Foi num desses encontros que um calouro da Sociedade, um rapaz vindo do interior de Minas Gerais, Lucio de Mendonça, propôs criar uma sociedade séria de letras, aos moldes da Academia Francesa de Letras. Os veteranos da Sociedade Petalógica gostaram da ideia, mas entenderam como uma paródia jocosa da instituição francesa. Era tudo meio ridículo, as cerimônias mimetizavam a nobreza, mas o Brasil já era uma república, o fardão verde bordado a ouro e o chapéu preto com plumas eram muito quentes para o Brasil, a espada era sem sentido e quem seriam os membros? Ninguém ali era um Victor Hugo e a literatura brasileira estava na infância. Às gargalhadas aprovaram a ideia, mas só se Machadinho fosse o presidente, o rei da paródia e da ironia, o mais brasileiro de todos, mestiço como o povo de “Pindorama”, a terra das palmeiras em tupi, da cor do Brasil, o mais digno representante das letras brasileiras. A Academia Brasileira de Letras foi fundada em 1897 com Machado de Assis como presidente, no entanto, a elite branca, ignorante, os “Rubiões” da aristocracia brasileira, levaram muito a sério, não entenderam como paródia satírica. Ninguém percebeu o paradoxo de um novo “imortal” ser escolhido quando um deles morre. Conseguiram um espaço público para funcionar no Museu Pedagogium. A imprensa apoiou a ideia e a Academia Brasileira de Letras passou de plágio jocoso da Academia Francesa para uma instituição nacional formal e seríssima. Atualmente, ser um literato já não é necessário, o membro passou a ser eleito entre militares, políticos ou apresentadores de televisão que pouco tem a ver com as letras. Getúlio Vargas, General Aurélio de Lyra Tavares, Fernando Henrique Cardoso, José Sarney ou o atual presidente da Academia Merval Pereira são exemplos de imortais que provavelmente fariam Machado de Assis reclamar: tudo bem que é galhofa, mas vamos manter o nível e não avacalhar tanto. Já Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade ou Mário Quintana, ícones sagrados da literatura brasileira e escritores aclamados ainda em vida, não foram membros. Sobre essa situação bizarra, Jorge Amado, imortal que fazia justiça à sua cadeira vitalícia, publicou em 1979, em plena ditadura militar, o livro “Farda, fardão, camisola de dormir”, exatamente sobre a esculhambação, putaria e politicagem que virou a eleição de um novo membro da Academia. O livro de Jorge Amado foi mais um dos que comprei naquela livraria de Amsterdam e me ajudou a compreender o Brasil mesmo estando tão longe.

Machado de Assis, o Machadinho “de cor”, sofreu durante toda sua vida um contexto que era hostil ao extremo com alguém de sua origem. Tudo que não fosse dos brancos era proibido. As danças, os ritmos, as lutas, as línguas, as religiões, as roupas, qualquer coisa. Um negro tinha que ser o mais discreto possível ou usar do humor, tinha aprendido com o exemplo de Paula Brito, jogar dentro das regras dos brancos para não morrer e só usar as armas autorizadas por eles para não ser chicoteado. A guerra do Paraguai, que começou em 1864, foi o único momento que negros e indígenas não foram invisibilizados, ao contrário, eram colocados nas linhas de frente para lutar e morrer pela nação que os escravizava com a promessa de alforria. Quando as pressões políticas contra a escravidão, principalmente vindas da Inglaterra, credora do Brasil, começaram a aumentar, as políticas públicas do império foram de embranquecer a população importando gente de vários países da Europa. Os europeus, pelo simples fato de serem brancos, eram convidados a imigrar e ganhavam terras, uma junta de bois, sementes e ferramentas para o desmatamento. Situação oposta viveram negros e indígenas que nunca foram indenizados pelo sequestro na África ou nos confins brasileiros, nem pelos anos de escravidão, trabalhos forçados, surras, estupros e assassinatos. Em 13 de maio de 1888, os senadores vitalícios escolhidos pelo imperador, todos ruralistas cafeícultores escravocratas que eram a base de sustentação do estado sob Dom Pedro II, se viram forçados pela Inglaterra a votar a lei Áurea extinguindo oficialmente a escravidão. Pensaram ser mais uma “lei para inglês ver” como se dizia na época, como foi a lei Feijó de 1821, que proibia o tráfico transatlântico de escravos e teve efeito oposto, fez aumentar o tráfico de africanos para o Brasil nas décadas seguintes. Machado somente deixa escapar sua estratégia para sobreviver àquele tempo cinco anos após a lei Áurea, num texto sobre o falecido escritor José de Alencar (“gordo amigo ausente”) para um jornal do qual era sócio: “Eu, o mais encolhido dos caramujos”. A frase mostra como se sentia diante de um país opressor e cruel com os povos originários do Brasil e da África, tanto antes quanto depois da lei, precisava tomar cuidados, se esgueirar como os capoeiristas, pois aquele foi o “único dia” em que “todos respiravam felicidade”: 

 "Houve sol, e grande sol, naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente sancionou, e todos saímos à rua. Sim, também eu saí à rua, eu o mais encolhido dos caramujos, também eu entrei no préstito, em carruagem aberta, se me fazem favor, hóspede de um gordo amigo ausente; todos respiravam felicidade, tudo era delírio. Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto."

Como era comum no mundo todo no fim do século XIX e início do XX, se falava em eugenia abertamente com argumentos científicos. Não faltaram pensadores a defender a superioridade genética dos brancos sobre as outras raças. Kant, Hegel, Hume, Montesquie, Comte, Tocqueville, Weber, Durkheim e tantos outros pensadores europeus se esforçaram em argumentar que os negros africanos eram selvagens, incapazes, atrasados, primitivos, preguiçosos, bizarros, feios e sempre lembrando que Deus que fez eles assim, diferentes, para que todos percebam de longe do que se trata. Os egípcios foram o povo mais difícil de desqualificar, pois era uma cultura avançadíssima da qual a Europa dependia. A solução foi branquear o Egito, dizendo que era o povo limitrofe entre negros e brancos e que graças ao contato com os brancos europeus se civilizaram. Carl Linnaeus foi só mais um dos que tentava classificar biologicamente as espécies e provar, por A mais B, que negros eram obviamente uma espécie animal diferente ou no máximo uma sub espécie humana. Havia toda uma hierarquia de raças humanas e as inferiores deveriam “cruzar” com os brancos, claro, para melhorar física e moralmente, além de aprimorar suas capacidades intelectivas. Ou seja, um branco estuprar uma negra ou indígena era até um favor para a humanidade. Genocídio também era uma possibilidade cogitada com seriedade e praticada sempre que possível. Machado talvez tenha lido nos jornais notícias sobre o genocídio negro praticado no Congo pelo rei belga Leopoldo II em 1885, onde vinte milhões de africanos foram assassinados. Ele também de uma certa forma anteviu Adolf Hitler no seu “humanitismo” do filósofo Quincas Borba. Leopoldo, Hitler e Quincas não saíram do nada, tinham base científica. Mas, eu lhe pergunto, caro leitor, você já viu algum filme sobre o genocídio de seis milhões de Judeus brancos na Europa? E sobre o genocídio dos vinte milhões de negros congoleses? Já leu alguma coisa sobre Adolf Hitler ser um monstro criminoso? E sobre o rei Leopoldo II? Pois é. Percebe? A indiferença da elite branca com os africanos não mudou tanto assim do século XIX para o XXI, na contagem de tempo européia cristã.

Modesto Broncos, pintor espanhol que vivia no Rio de Janeiro naquela época, captou as intenções da elite branca carioca no seu quadro “A Redenção de Cam”, de 1895, onde uma avó negra muito magra e descalça agradece aos céus por seu neto ter nascido branco, já que sua filha mestiça, muito provavelmente fruto de um estupro, casou com um branco calçado e sorridente. A criança segura uma laranja, simbolizando a fartura de alimento que terá graças a “purificação” da raça. Machado de Assis com certeza refletia muito sobre eugenia, ele mesmo resultado do esforço de branqueamento da população: seu pai mestiço, talvez fruto de um estupro, escravizado alforriado, casou com uma portuguesa branca, nosso Quincas tem a exata mesma posição do menino com a laranja no quadro. Porém, como não teve a sorte de nascer branco como o guri da pintura, precisa se encolher como um caramujo e comemorar com discrição. A teoria do humanitismo, do filósofo Quincas Borba, capta a mensagem direitinho, TEM que ter um vencedor e um vencido, é preferível que os inferiores morram mesmo, sejam eliminados, para limpar a área para aqueles que tem sangue bom. Os portugueses da elite carioca queriam ter a certeza que o vencedor aqui em “Pindorama”, seria um branco.

A crítica literária era implacável com Machado de Assis. O chamavam de plagiador sem graça ou imitador sem imaginação, por fazer suas paródias. Sempre que podiam também, tentavam rebaixá-lo devido a sua cor usando adjetivos como “Trigueiro”, “mulato”, “com rosto feio” ou mesmo o diminutivo Machadinho. Machado, discreta e estoicamente resistia ao racismo que sofria melhorando sua luta anti-racista. Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, foi o livro que inaugurou sua fase debochada, conhecida como realista. O personagem principal é um herdeiro branco e rico, que nunca precisou trabalhar, foi para Coimbra estudar, mas não aprendeu nada, engana as mulheres, cria um emplastro que seria uma panacéia, mas não funciona, empreende negócios infrutíferos, tenta se lançar como político acreditando que faria história, mas é medíocre. Ou seja, Brás Cubas é um bosta que “se acha” e, felizmente, na ficção pelo menos, já morreu. Machado mostra como aquele tipo de cidadão, típico branco herdeiro rico da época, passa a vida sem conseguir deixar uma simples marca no planeta e a única coisa da qual pode se orgulhar é quando não deixa prole, não contribuindo para perpetuar tal tipo de escória humana. Já o próprio Machado de Assis, que deixou uma importante marca para a humanidade, também não deixou filhos, não queria deixar prole que sofresse em país tão desigual e racista como sofreu. Era um funcionário público com um cargo menor no Ministério da Agricultura, não ganhava muito bem, trabalhava como fiscal na aplicação da Lei do Ventre Livre e libertou centenas de escravizados através de processos judiciais provando que a criança tinha nascido depois da lei. Também era sócio de um jornal para poder escrever, sem perseguições, deboches contra a elite dominante com dezenas de pseudônimos. Machado, que até publicava livros lidos séculos depois de sua morte, apesar de tantos bicos, não tinha onde cair morto, morou a vida inteira de aluguel na casa de uma Condessa na Rua Cosme Velho, de certa forma ainda um mero agregado na casa de uma branca como sempre foi desde que nasceu no Morro do Livramento. Outra de suas atribuições no seu cargo público era distribuir terras para os brancos que migravam para o Brasil vindos da Europa branca. Sobre isso refletia com uma frase irônica que parece tirada da boca do cantor Tim Maia: “Uma alma chora e a outra ri, essa é a perfeição do mundo”. Você pode imaginar o tanto de raiva, indignação e revolta que esse trabalho lhe dava?

Machado não tinha esperança nenhuma na humanidade, seu meio ambiente era hostil demais, só conseguia perceber um mundo cruel que fazia tudo para se perpetuar. Está claro que Machado era leitor e admirador do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, autor que estava muito na moda entre eruditos de então, pois seu pessimismo em relação à humanidade é obviamente nele inspirado. Schopenhauer, ateu assumido, não cria no livre arbítrio, percebia a humanidade como um conjunto de seres que seguem uma vontade cega e sem sentido com a única intenção de perpetuar uma eterna e sofrida luta pela sobrevivência, exatamente como o humanitismo do Quincas Borba machadiano. Sigmund Freud era contemporâneo de Machado de Assis e também um admirador da obra de Schopenhauer. Não há evidências se Machado leu Freud, mais improvável ainda seria Freud ter lido Machado, cidadão da “periferia do capitalismo”, segundo ele mesmo, mas os dois estavam sintonizados nos mesmos pensamentos daqueles tempos. A terceira ferida narcísica da humanidade, segundo Freud, era o fato que “o eu não é senhor em sua casa”, ou seja, o livre arbítrio é uma ilusão, há um inconsciente controlador que dita para a consciência humana como se comportar. Nem a terra é o centro do universo, nem o Ser Humano foi criado especial por algum deus, nem mesmo somos donos dos nossos próprios pensamentos.

Vejo muita semelhança entre o pensamento de Machado de Assis e o de Vincent Van Gogh, pintor holandês. Os dois produziam na mesma época e retratavam o mundo muitas vezes de forma pessimista. Seus trabalhos carregavam nas tintas, eram irônicos e caricaturais. Os críticos analisavam suas obras com muito estranhamento, até desdém, mas aqui e ali admitiam que tinham conteúdo profundo e impressionante. Os dois invertiam a lógica do que se esperava deles e muitas vezes chocavam. Ambos sofreram com problemas de saúde mental graves. O brasileiro sofria de eplepsia e, no final da vida, uma depressão profunda, fora a constante discriminação por ser negro. O holandês sofreu a vida toda de depressão, comorbidade comum entre os autistas, mas o conceito de autista ainda nem existia, achavam que era somente “excêntrico”,  O fato é que os dois eram discretos e reclusos, se esquivavam do convívio social. A diferença entre eles é que: o autista se retirou para o interior e se matou antes que sua obra fosse consagrada, final trágico clássico de neurodivergentes; o negro foi embranquecido para ser mais aceitável, outro final trágico clássico para não brancos. Até a rainha negra egípcia Cleópatra virou Elizabeth Taylor no cinema para ser mais palatável ao gosto europeu. O que me chama atenção é que ambos expressavam através de suas obras como percebiam o mundo e os dois discordavam do “status quo”. O quadro abaixo é o “Campo de trigo com corvos”, de 1890, um dos últimos antes de Van Gogh morrer, no mesmo ano que Machado estava finalizando a publicação em folhetim do romance Quincas Borba. Compare com o quadro de Modesto Broncos que vimos antes. A diferença brutal entre eles é semelhante à diferença que os críticos viram entre os livros de Machado e outros autores de sua época. Agora, de novo lhe pergunto, caro leitor, já tinha ouvido falar de Modesto Broncos? E Van Gogh?


Me dói perceber que o personagem central do romance Quincas Borba, Rubião, o interiorano pobre e ingênuo que se converte na pseudo filosofia de Quincas Borba ao longo da trama, é um professor. Imagino que Machado tenha se inspirado em algum docente da sua curta passagem como aluno de escola pública. Não o culpo, também sou professor e tenho muitos colegas interioranos, pobres e ingênuos que facilmente caem na lábia de algum “coach” como Quincas Borba. Temo eu mesmo ser só mais um desses parvos. Ou seja, Machado não só ri da elite burra, mas também ri e sapateia sobre aqueles pobres que têm acesso ao conhecimento formal, mas são acríticos e tolos sobre as reais intenções dos discursos legitimadores da elite. Usando mais um jargão atual para descrever o que Rubião representa na sociedade brasileira seria o “pobre de direita”. Uma pessoa ignorante, racista, machista, se pudesse escravocrata, fundamentalista religioso, uma pulha risível, como todos os personagens brancos retratados nos livros de Machado. Como diria Paulo Freire, que é patrono da educação nacional: “Se a educação não for libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor”. 

Machado de Assis provavelmente nunca assistiu uma partida de futebol, esporte que atualmente domina o cenário recreativo nacional. Nem ele nem a maior parte da população do Rio de Janeiro que vivia naquele tempo. Nenhuma criança, rica ou pobre, branca ou negra, sabia da possibilidade de brincar com uma bola aos chutes. O futebol recém havia chegado ao país, mas não era popular, a própria bola era importada da europa, um instrumento de trabalho de adultos, cara e rara. O time com maior torcida do Brasil atualmente, disparado, e um dos mais antigos do país é carioca e já existia durante a vida de Machado, mas era um clube de regatas, o Clube de Regatas Flamengo, na praia do Flamengo. O departamento de futebol do clube só foi criado em 1911, três anos após a morte do escritor em 1908. A mesma história acontece com o Clube de Regatas Vasco da Gama, que só criou o departamento de futebol em 1914. No entanto, já existiam clubes dedicados ao futebol que são contemporâneos ao fim da vida de Machado, como o América Football Club (1904), o Fluminense Football Club (1902) ou o Botafogo Football Club (1904). Não foi só na capital federal que os ingleses começaram a ensinar o futebol, primeiramente nas suas companhias. A primeira partida de futebol no Brasil foi jogada em 1895, na cidade de São Paulo, entre duas companhias inglesas, a São Paulo Railway Company e a São Paulo Gas and Light Company. Os industriais davam tempo e espaço para a atividade durante o horário de trabalho e prêmios em dinheiro para que os operários brancos, migrantes chegados ao país, participassem e se esforçassem para seguir direitinho todas as regras em busca do triunfo. Migrantes eram a mão de obra barata para substituir os negros recém libertos que agora era simplesmente descartados aos milhares, sem nenhum direito a indenização por terem sido sequestrados nos seus países de origem e escravizados em Pindorama. Era extremamente importante ensinar a ideologia da atividade. Os muito pobres não tinham tempo nem disposição para praticar atividades físicas recreativas. Negros e indígenas eram proibidos de participar daquelas partidas pioneiras, claro. Aqueles africanos, indígenas ou mestiços que, por um bizarro acaso, já que eram tidos como inferiores, se mostrassem hábeis no jogo, eram pintados de pó de arroz para que os árbitros e a platéia não percebessem que se tratava de pessoas de cor. O pó de arroz era o equivalente ao pseudônimo para escrever no jornal, um artifício para um negro não ser agredido. Já a elite branca, que tinha muito tempo livre, praticava alguns esportes na época de Machado, principalmente o turfe, a vela e o remo. No entanto, é curioso para alguém que vive nos dias de hoje, essas atividades não eram conhecidas como esporte. 

A palavra esporte, em português, vem do inglês “sport” e foi criada pelos donos de fábricas ingleses. Curioso, não lhe parece? Por que os industriais teriam interesse em pensar atividades recreativas como os esportes? E porque todos os clubes de futebol foram criados quase que ao mesmo tempo no Rio de Janeiro? Os ricos burgueses que lideravam a revolução industrial, queriam uma palavra que bem nomeasse o que estavam entusiasmados inventando. A língua internacional da época era o francês e foi lá que os empresários foram buscar a palavra “desport”, hoje em desuso, que significava passatempo ou recreação. A corruptela “sport” foi para anglicizar e publicizar o termo. Em português também existe a palavra desporto, tradução direta do francês “desport”, mas também está em desuso devido a total vassalagem cultural atual ao inglês. Perceba, caro leitor, como se dava a luta de classes da época. Enquanto os trabalhadores das fábricas se uniam, se organizavam para reivindicar melhorias na remuneração e condições de trabalho usando sua única moeda de troca, sua força de trabalho, seu poder de barganha só existia quando numa união solidária de uns com os outros decidiam não trabalhar. Somente a greve de todos juntos os possibilitava sentar na mesa de negociação. Os donos dos meios de produção queriam exatamente o contrário, desunir, dividir de alguma forma os operários para que não parassem as fábricas muito menos sentassem à mesma mesa que eles. Assim, todos os esportes modernos que você conhece hoje em dia (futebol, basquete, handebol, vôlei, rugby, futebol americano, basebol, etc.) foram criados ou tiveram suas regras sistematizadas em 50 anos, de 1850 a 1900, décadas que coincidem com o fim da escravidão legal em países como Estados Unidos ou Brasil e a vida de Machado de Assis. O único fim da criação desses passatempos competitivos era desmobilizar as greves, desunir a união dos trabalhadores, os “labor union”, os sindicatos ingleses da época. O Plano era colocar umas equipes de trabalho, “teams”, contra as outras em competições com objetivos, “goal”, opostos. Como na teoria humanitista do filósofo Quincas Borba, num esporte uns TEM que vencer os outros, uma equipe TEM que eliminar a outra numa competição onde somente um pode sobreviver. A cultura esportiva atual, todo o extraordinário fenômeno antropológico do esporte, foi um meio de aumentar a produção, foi historicamente criado e disseminado com o objetivo de ensinar o povo a aceitar pacificamente e se resignar de sua inferioridade social mimetizando o capitalismo. Se você está no time dos que perderam na vida, a culpa é sua. A estratégia foi um sucesso total, até hoje as pessoas aceitam como normais as brutais diferenças sociais, nem se percebem vítimas de um cuidadoso planejamento social dos dominantes para continuar dominando. A sociedade deve ser individualista e competitiva, jamais solidária. E a receita dos ricos para os pobres vencerem na vida é: obedecer as regras como os escravos faziam para não sofrer punições, buscar atingir as metas totalmente alienadas da realidade propostas pelos ricos, tentar eliminar a concorrência mimetizando o capitalismo atingindo metas mesmo com os adversários atrapalhando e, principalmente, jamais propor mudanças nas regras.

Machado de Assis, mais do que qualquer outro brasiliero da época, percebeu para onde o mundo caminhava ainda antes do surgimento dessa cultura esportiva se espalhar como um vírus na sociedade, percebeu o que significavam todas as transformações pelas quais o Brasil passava. Ele entendeu o “modus operandi” dos dominantes para sempre permanecer no poder e tentava denunciar nos seus livros, contos e crônicas. Machado jamais cairia na esparrela do esporte. Perceberia claramente que é somente mais um instrumento da elite branca para perpetuar sua dominação, uma arapuca para ignorantes, para continuar chicoteando os pobres iletrados. Assim como Deus ou o darwinismo social, os esportes são só mais uma invenção para enganar despossuídos que continuarão submissos e sob controle. A competição só é boa para quem está ganhando, melhor ainda para quem sempre ganha, geração atrás de geração. Como Machado já havia percebido no século XIX: “O melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão”. De todas as propostas dos ricos para continuar ricos, o esporte é o mais eficaz para disseminar uma cultura de submissão, ainda melhor que um deus que julga olhando de fora. No esporte, o julgamento vem de dentro do próprio sujeito. Se alguém não venceu na vida, os perdedores ou “losers” como ensinaram os ingleses, foi porque não se esforçou o suficiente. Os industriais ingleses conseguiram fazer o povo acreditar que a vida é uma competição, somente alguns vencem e os outros tem que se resignar e continuar jogando obedecendo às mesmas regras. Como diz um famoso ditado, inventado pelos próprios opressores, claro: “o importante não é vencer, é competir”! Veja que a proposta dos esportes elimina do imaginário popular o paradigma cristão de amor ao próximo, solidariedade e divisão das riquezas. Ao vencedor as batatas, já pregava o messias Quincas Borba de Machado de Assis, o “loser” fica com o ódio ou a compaixão e é eliminado, simplesmente. A proposta de sociedade dos brancos ricos era, e ainda é, essencialmente individualista, cada um tem que tentar salvar o seu e o resto que se lasque. Machado sacou tudo e tentou nos alertar sem ser preso ou chicoteado, dizendo sem dizer, lutando sem lutar, assim como os capoeiristas faziam. 

No final de sua vida, Machado de Assis ainda teve o desgosto de ver o “bota-abaixo” no Rio de Janeiro: reforma urbana do prefeito Francisco Pereira Passos em 1905. Com a intenção de “higienizar” e “modernizar” a cidade, se demoliu moradias populares no centro da cidade e expulsou para os morros os pobres, negros e indígenas principalmente. Higienizar era fazer com que pessoas de cor sumissem da paisagem urbana. Agora podiam ser descartados, os donos dos meios de produção já tinham substituído os escravos por imigrantes brancos europeus pobres que aceitavam trabalhar em troca de muito pouco.

Há um único conto onde Joaquim Maria Machado de Assis explicita a ideologia vigente de forma cabal, se chama “O pai contra a mãe”, de 1906, fácil de achar na internet. Machado já estava viúvo, velho e doente ao publicá-lo, já tem a autoridade de presidente da Academia Brasileira de Letras. Acredito que finalmente tenha ligado o modo “foda-se”, com o perdão da palavra, abre mão de qualquer pseudônimo e assina todo nome. Como era de seu estilo, nada diz sobre a virtude dos personagens, não dá lição de moral no texto, só mostra um retrato da época, como se literalmente tirasse uma foto preto e branco, sem edição no tom das cores da sociedade em que ele era uma das vítimas. Fazia que os brancos vissem sua própria hipocrisia naquele espelho sem filtros, retratou como os dominantes põe uns pobres contra os outros ao ponto de um ter que ser eliminado, morto mesmo, para que o outro sobreviva. Machado tenta mostrar que o branco sempre vence na vida, sobrevive e fica com as batatas. Sempre usando suas ironias sarcásticas, o personagem que “come as batatas” no conto, ou seja, perpetua seus genes eliminando o preto, se chama “Cândido Neves”, só mais um ingênuo branco que tenta salvar o seu. 

Astrojildo Pereira, ateu e leitor assíduo de Machado de Assis, aos 17 anos invadiu a casa do escritor na rua do Cosme Velho sem ser convidado. Ficou sabendo que Quincas estava agonizando, já no leito de morte. Ajoelhou ao seu lado, agradeceu e beijou sua mão, levantou-se e saiu chorando. Outros imortais que velavam os últimos suspiros de Machado em respeitoso silêncio relataram a cena sem entender o porquê do desconhecido jovem fazer aquilo. Astrojildo depois se tornou escritor, jornalista, crítico literário e político, foi um dos fundadores do Partido Comunista no país e anos depois escreveu sobre aquele momento. Ele reverenciava Machado por ter lhe dado, através de sua obra, a consciência de classe necessária para compreender a necessidade da organização e da luta por uma sociedade mais justa. Em nenhum momento Machado cita o ateu Karl Marx, não há nenhuma evidência de que o tenha lido. No entanto, Astrojildo argumenta que Machado escreve toda sua obra influenciado por Marx, principalmente por seu livro “A Miséria da Filosofia”, de 1847. Na obra, Marx parodia, ironiza e critica Proudhon inclusive no título, mostrando que a miséria não é um subproduto indesejado, mas sim estrutural e histórico do capitalismo. A miséria é planejada, como Machado percebia na prática de seu trabalho como funcionário público, dando terras para brancos e expulsando os negros da cidade.   

No dia seguinte à morte de Machado de Assis em 1908, na contagem de tempo européia cristã, José Veríssimo, famoso crítico literário da época, um dos primeiros imortais, escreveu um necrológio no jornal descrevendo Machado como mulato. Joaquim Nabuco, outro membro da Academia Brasileira de Letras, ficou indignado, mandou uma carta pedindo que corrigisse a informação, a palavra mulato era pejorativa e não deveria estar associada ao gênio da literatura. Nabuco sugeria que trocasse para “grego”. A cor de Machado incomodava até mesmo depois de sua morte e houve um grande esforço para embranquecê-lo. A elite branca não admitia que uma pessoa tão admirável quanto Machado de Assis pudesse ter qualquer rastro de negritude na sua biografia. 

Tentei escrever esse texto à tempo para debater com os alunos sobre o novíssimo feriado da consciência negra, mas não consegui. Soube que a professora de português estava estudando Dom Casmurro no terceiro trimestre. Acabei fazendo uma fala de improviso na aula, há tanto o que falar quando se estuda a vida de Machado de Assis. Ele é a própria incorporação do povo mestiço brasileiro que trabalha estoicamente contra a opressão. Se eu não falasse sobre os indígenas que foram, na sua grande maioria, assassinados, seria uma injustiça. Ainda nem há nenhum debate para criação do feriado da consciência indígena, mas todo mundo sabe aqui no Brasil o que significa capim, pereba, abacaxi, jacaré, cutucar, paçoca, guri, mingau ou mesmo carioca, todas palavras em tupi. O “portupi” não é falado em Portugal, mas a dissonância cognitiva das escolas nos ensina que falamos português. Mas claro que o povo negro é um dos que mais apanha no Brasil, em todos os sentidos. Como diz Elza Soares: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Curiosamente, meus alunos negros são quem mais esperança tem de um dia se tornarem jogadores de futebol profissionais. Eu, como professor de Educação Física, me preocupo. Percebo uma dissonância cognitiva incrível quando se fala em esportes, assim como Machado percebia e denunciava o darwinismo social. Quem ouve o discurso dos que defendem os esportes acredita ter encontrado a fórmula do emplastro de Brás Cubas, uma verdadeira panacéia social que resolve qualquer mazela. Sempre se fala que o esporte promove a inclusão e é justamente o contrário. Qualquer campeonato esportivo é um festival da exclusão, todos vão sendo eliminados, sua memória apagada, até se chegar àquele único que vence e é celebrado nas manchetes de jornais. Se fala que faz bem para saúde, mas é o oposto. Os praticantes se expõem muito mais a lesões graves do que quem não pratica. As pessoas confundem a palavra esporte como sinônimo de atividade física: atividade física faz bem, competições não. Dizem que aumenta a auto estima e diminui a ansiedade dos jovens e é exatamente o contrário. Os praticantes ficam ansiosos, irritados, deprimidos e brigando uns com os outros por detalhes ínfimos, basta assistir um único recreio de escola para perceber com clareza o problema. Qualquer argumento em favor dos esportes, e são muitos, pode ser exposto se lixarmos, com muito esforço, a dissonância cognitiva que está firmemente aderida ao tema. A única real função dos esportes é a de perpetuar a ideologia da exclusão: somente poucos ganham, a maioria TEM que perder e a eles sobrará o ódio ou a compaixão e, se sobreviverem, a vingança.

 Fiquei bastante preocupado quando fiquei sabendo que o Presidente Lula vai criar a Universidade do Esporte. No começo me choquei: como um cara que sobe a rampa do Palácio do Planalto de mãos dadas com negros e indígenas, mulheres e LGBTQIAPN+ e até animais de estimação cai nessa armadilha? O cara que cria o bolsa família e o minha casa minha vida para dividir riquezas é assim ingênuo? Mais preocupado ainda fiquei quando lembrei que por diversas vezes ele se disse torcedor de um clube de futebol, o Sport Club Corinthians Paulista, fundando por operários europeus na capital de São Paulo em 1910. Depois compreendi, Lula é como Machado, um capoeirista político, está tentando não ser percebido e até agradar, se esgueirando entre os opressores, lutando valentemente só com seu gingando de paz e amor. Escolheu Alckmin como vice, dá dinheiro para o agronegócio, negocia com qualquer corrupto do congresso até mesmo com a bancada escravocrata ruralista de senadores “vitalícios” ao mesmo tempo em que vai transformando a sociedade. Machado de Assis dizia escrever “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. A futura Universidade do Esporte é uma galhofa, como a Academia Brasileira de Letras foi para Machado. Lula está dizendo, vamos estudar mais o tema, porque aí está o fulcro do capitalismo, da sociedade de classes. Lula tem lugar de fala, como Machado teve acesso aos dois extremos das classes brasileiras. Veio do interior seco do nordeste fugindo da fome e, com muito esforço, venceu na vida jogando com as armas autorizadas pela elite. Assim como Machado era chamado de Machadinho, mulato, mestiço, trigueiro, plagiador, imitador e outras alcunhas depreciativas, Lula foi chamado de nordestino, analfabeto, ladrão, corrupto, “nine” por ter nove dedos nas mãos, de tudo. “O país real, esse é bom, revela os melhores instintos, mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.” é uma frase de Machado, mas bem poderia sair da boca de Lula. A elite branca brasileira, os “Rubiões” caricatos da imprensa aristocrática já apoiaram a ideia da Universidade dos Esportes e estão providenciando a sede da instituição. 

Aquele menino negro que nasceu no Morro do Livramento no Rio de Janeiro, que escapou da morte por pouco, que se livrou da escravidão por sorte, que frequentou a escola por pouquíssimo tempo, que teve que começar a trabalhar com dez anos de idade, que gostava de ler e escrever, sobreviveu muito mais que outros meninos nascidos naquele lugar, naquele tempo e com aquela cor de pele. Então, vamos recapitular. Machado de Assis nasceu com fenótipo africano num país que considerava os negros inferiores. Foi alfabetizado cedo num país de analfabetos. Conseguiu emprego como funcionário público e ganhava pouco, mas lhe dava certa estabilidade financeira. No seu trabalho, tirava negros da escravidão e distribuia terras para imigrantes brancos. Não acreditava em livre arbítrio, como Freud e Schopenhauer. Era contra a eugenia, apesar da ciência estar toda debruçada no esforço de prová-la. Não tinha como não ser ateu, cético que era na humanidade dos seus contemporâneos. Era monarquista, não queria que o país caísse nas mãos de algum ignorante e torpe militar golpista, como de fato ocorreu diversas vezes. Sua obra sugere o comunismo fazendo uma dura crítica ao sistema econômico vigente, mesmo  vivendo na periferia do capitalismo. Não tinha onde cair morto, morava de aluguel até o fim da vida mesmo já sendo um escritor consagrado. Sofreu todo tipo de racismo e vivia se esgueirando discretamente entre os opressores para não ser percebido. Usava vários pseudônimos para não ser hostilizado, mesmo assim foi diversas vezes pessoalmente ofendido pela crítica literária. Se obrigava a ser o mais encolhido dos caramujos para não ser morto ou chicoteado. Tratava com carinho os animais de estimação, quando na época eram tratados com crueldade. Esse cidadão típico do país miscigenado é o maior escritor brasiliero de todos os tempos, ainda bem.

A primeira rede de transmissão televisiva fundada no Brasil em 1950 queria ser capilar entre os pobres, comunicar e ser bem entendida, queria ensinar ao povo valores que consideravam adequados para eles, entre os quais o esporte e seu futebol inglês, seu nome foi fácil de ser escolhido: Rede Tupi. Assis Chateaubriand, seu fundador, era senador e imortal da academia brasileira de letras. Quincas sabia que era tudo uma galhofa, o país oficial é caricato e burlesco… Ainda.