Meu
filho, meu pai, e eu que sou nenhum deles mas um pouco dos dois
Meu
filho Rodrigo mora longe, no Paraná. Todo ano me visita por uns 15 dias. Esse
ano decidi que iríamos caminhar por trilhas pelo mato, até a Reserva Indígena Federal
do Campo Molhado em Maquiné. Exerci o poder que o papel de pai me autoriza. Não
coloquei em votação ou o consultei, determinei. Claro que, se fosse perguntar, ele
certamente preferiria ir a um shopping ou a praia tomar sorvete. Nas férias,
meu filho conheceria uma aldeia real, não só por fotos em livros de história.
Queria que ele vivenciasse a experiência de conviver com um povo nativo,
obviamente em extinção, que testemunhasse aquela cultura viva, no seu habitat
original. Quando o comuniquei, ele simplesmente disse: tá. Com mais um dos
monossílabos que o caracteriza e me incomodam.
Combinei
com mais dois amigos, Ricardo e Daniel, com experiência em longas caminhadas, aquelas
de dias de duração, para irem conosco. Eles acharam melhor contratarmos um guia
para o início da trilha, a parte mais difícil, a escalada das montanhas.
Procurei um velho mateiro, Seu Adelino, de 72 anos de idade. Acertamos o preço
para um dia inteiro e ele também nos levaria de jipe até a boca da trilha. Arrumamos
a mochila e, no dia combinado, saímos caminhando até a casa do guia. Ele já nos
esperava. Subimos no jerico e partimos em direção ao fundo do vale do Rio do
Ouro.
Perto
do fim da precária estradinha, aquele jipinho estragou. Nosso diligente guia
ainda tentou fuçar um pouco, mas logo desistiu de consertar. A partir dali,
seguimos a pé. Na primeira travessia de rio, meu filho escorregou e caiu de
costas dentro d’água, molhando todas as coisas de sua mochila. Tudo bem, ele
levava a menor mochila, eram mais comidas, latas e sacos plásticos. Na sequência,
fui eu quem escorregou e enchi as botas de água. Tínhamos caminhado 500m de
trilha e já estávamos ambos com os pés molhados! Temi que teríamos uma jornada
de muito sofrimento, com bolhas e frieiras nos pés. Mas o sol brilhava por
entre as árvores e estávamos animados. Passamos pelas últimas casinhas
habitadas e começamos a subir a montanha sempre costeando o rio. Seu Adelino ia
tranquilo, animado, nos mostrando locais curiosos, como estrebarias em ruínas,
casas abandonadas, árvores centenárias e cachoeiras bonitas. O cheiro úmido da
floresta nos envolvia completamente. Cruzamos mais umas cinco ou seis vezes o
rio sobre pedras escorregadias e todos acabamos caindo na água, inclusive o
velho mateiro!
O
vale do Rio do Ouro chegou a ter mais de 600 moradores, era todo ocupado com
roças e criações. Mas, com as leis ambientais, a forma ancestral de fazer
agricultura nas encostas, com o uso das queimadas, ficou inviabilizada. Todos
abandonaram o vale e hoje a aparência é de floresta virgem, de que nunca houve
ocupação humana ali. Mas, o olhar atento de nossos dois companheiros, ambos
biólogos, iam nos alertando para espécies exóticas de flores e frutas de
antigos jardins e pomares, que sobreviveram. Íamos provando o gosto daquela
floresta com frutinhas que nos indicavam para comer.
Por
volta de uma da tarde, chegamos ao alto da montanha. Nos despedimos de seu
Adelino, que agora faria o caminho de volta. Aos 72 anos, ele era o menos
cansado. Tirei a camiseta e as calças, as trilhas seriam mais abertas nos
campos de cima da serra e não precisaria mais tanto delas para proteger o corpo
de arranhões da mata. Mesmo ali na serra, sendo um clima mais ameno do que
quando começamos a caminhada no vale, ainda estava quente, era janeiro! Torci a
camiseta e foi como torcer um pano de chão: saiu um abundante caldo sujo, puro suor.
Trouxemos muita bebida, mas agora tudo estava no fim. Para cozinharmos o almoço
deveríamos primeiro encontrar água corrente e limpa. Descansamos um pouco,
ninguém tinha se ferido ou ficado exausto na subida. Meus pés estavam bem,
apesar do esforço da escalada com pesadas mochilas nas costas. Surpreendentemente,
meu filho não reclamava da jornada, mantinha-se em silêncio. Troquei algumas
peças de roupa, coloquei calções e meias secas e seguimos viagem preocupados em
encontrar o que beber, mas agora de tronco nu.
Paramos
para almoçar ao lado de um córrego de águas limpas. Cozinhamos, enchemos os
cantis e tiramos fotos. Meu filho Rodrigo tem hábitos alimentares muito
restritos, quase só come carne. Se negou a comer a massa com atum que fizemos.
Insisti, irritado, então ele comeu umas quatro garfadas com cara de nojo, depois
jogando fora quase tudo. Comeu barrinhas de cereal e bolachas me deixando
profundamente incomodado e constrangido diante de meus dois amigos. Pensei que
a fome do esforço da caminhada e a ausência de carne num raio de 15km, o
transformaria em comedor de qualquer coisa, mas não. Ele não é como eu gostaria
que fosse e esse veraneio foi bem educativo para esse pai que te escreve, caro
leitor.
Arrumamos
novamente as mochilas e partimos. Em duas horas, chegamos numa porteira com
dizeres que ali começava a reserva indígena. A entrada era proibida para
estranhos, o que me fez relutante em cruzar a fronteira. Porém, fui logo
convencido por meus companheiros de viagem a atravessar a barreira. Perto das
cinco da tarde, ao som de arapongas, chegamos à aldeia indígena com suas
choupanas feitas de troncos de xaxim e telhados de taquara. Fomos recebidos por
um intérprete sorridente, Lucas. Conversamos um momento e pedimos para acampar
por ali. Ele, então, nos surpreendeu com uma generosa oferta: nós poderíamos
dormir no galpão despensa, onde eles tem freezers que guardam a comida da
comunidade. Além disso, pegou uma motosserra, serrou um tronco em pequenos
tocos e rachou muita lenha para nós. Ele mesmo acendeu o fogo e sentou-se para
conversar. Pegamos nossas coisas de higiene e roupas limpas e perguntamos por
um local para banho. Lucas nos conduziu para um pequeno córrego e nos deixou à
vontade. Eu e Ricardo nos pelamos e tomamos um banho rápido, Daniel e Rodrigo
não se animaram com a precariedade do local. Queriam mergulhar e ali no máximo
dava para molhar a bunda. De novo, me aborreci com as atitudes de meu filho,
mas achei que ele logo estaria assado por caminhar suado e isso seria uma boa
lição.
Cozinhamos
uma deliciosa refeição no jantar, arroz com linguiça e lentilhas. Partilhamos
com Lucas e um outro indígena jovem que ali permanecia totalmente em silêncio
pois não falava português. Eles comeram satisfeitos, mas meu filho Rodrigo
novamente preferiu bolachas. Constrangimento número três. Eu já não me aborreci
tanto agora, sabia que mais uns dias de fome ele cederia. Ficamos conversando
ao redor do fogo, limpos e satisfeitos até anoitecer, contando causos. Daniel,
Ricardo e Lucas acenderam cigarros de palha e ferveram um chá. Bebemos e
gargalhamos juntos, hidratando e descansando os corpos da dura caminhada do
primeiro dia. Lá pelas tantas, perguntaram sobre um texto meu que haviam lido.
Recontei tudo, animado, à luz da fogueira. Todos acharam muito engraçada e
curiosa a história e, quando olhei para o lado, vi o rosto do meu filho
iluminado. Ele estava alegre, rindo e surpreso com minha narrativa, nunca tinha
me ouvido contar alguma história ou, as que por acaso escutara, não o havia
interessado. Naquele lugar distante, sem sinal de wi-fi por perto ou uma tomada
para carregar o celular, talvez inebriado pelo cheiro da fumaça e a fome que
certamente o abatia, no completo escuro da noite, meu filho me viu e escutou
pela primeira vez. Aquele momento, com os indígenas, talvez tenha sido muito
educativo para esse filho que mora distante e não conhece o próprio pai.
Fomos
dormir no chão duro de tábuas que haviam nos cedido. Apesar de cansado, não
adormeci rápido. Fiquei a sós com meus pensamentos no completo breu do galpão.
Passei a lembrar da minha infância e adolescência. Naquele tempo, não havia
computadores ou celulares e os melhores momentos eram semelhantes àqueles que
meu filho havia recém experimentado: Conversas com meus pais à noite.
Geralmente no verão, nas férias ou veraneios. Nas noites quentes, abríamos as
cadeiras preguiçosas no meio do pátio e ficávamos a filosofar sob a luz das
estrelas durante horas. Era encantador ouvir histórias de filmes que haviam
assistido no cinema, de livros que tinham lido, de pessoas que conheceram ou
lugares por onde haviam viajado. Como aqueles momentos me marcaram. Lembrei dos
gostos de meu pai, tão diferentes dos meus. Quantas vezes eu o
desapontei, como agora meu filho faz comigo. Talvez eu tenha feito cara de
nojo para comidas que ele gostava, o constrangido na frente de amigos ou
respondido com monossílabos e desinteresse propostas que ele considerava
empolgantes. Ele era um grande futebolista e eu sou um radical militante anti
esportes, especialmente o futebol. Com certeza deve ter tido algum momento que
ele me passou a bola e eu nem olhei. Finalmente adormeci, amadurecido pelo
remoer das mazelas familiares.
O
segundo dia amanheceu frio e com uma espessa serração. A paisagem era cinzenta
e ao mesmo tempo colorida, um ambiente onírico. Comemos pão com castanhas e
linguiça em volta da fogueira, partilhando com nossos anfitriões indígenas. Cães
e galinhas ciscavam ao nosso redor. Estávamos já bem integrados àquela
comunidade. Nas conversas durante a refeição, fomos desaconselhados por Lucas a
seguir com nosso plano de caminhar até a nascente do Rio dos Sinos em Caraá.
Segundo ele, seriam umas oito horas de caminhada e muitas oportunidades de se
perder pelas trilhas do caminho. Se errássemos uma única encruzilhada,
ficaríamos perdidos por dias. Nos sugeriu caminhar para um grande lago que
havia na reserva e lá acampar. Também nos convidou a ajudar na construção de
uma Oga Tatu (uma oca, com g mesmo, em formato de casco de tatu, para receber
visitantes como nós). Concordamos então com as duas sugestões. Não tínhamos provisões
para ficar perdidos na floresta e também achamos justo, depois de tal generosidade
na acolhida, que retribuíssemos de alguma forma.
Depois
do café da manhã, subimos num Jerico semelhante àquele de Seu Adelino. Fomos por
estradinhas da reserva até uma área que usavam para extrair madeira, com
árvores relativamente jovens e troncos ainda finos. Lucas cortou algumas
árvores e carregamos os troncos para a carreta agrícola. Antes de terminada a
tarefa, estragou a motosserra. Lucas parou o trabalho, calmamente desmontou a
parte avariada e, enquanto conversava conosco, fez o conserto eficazmente. Terminamos
o trabalho brincando de dirigir o jerico. No almoço, cozinhamos juntos no fogo
de chão do galpão e novamente meu filho comeu somente bolachas. Comecei a ficar
preocupado, pois, havia dois dias que o guri se alimentava mal, dias de muito
esforço físico e ainda tínhamos muito o que caminhar.
À
tardinha, ainda sob neblina intensa, compramos algum artesanato dos indígenas
para sermos simpáticos e termos lembranças em casa do passeio, nos despedimos e
partimos da aldeia em direção ao lago da reserva. Lucas havia nos alertado que seria
cerca de uma hora de caminhada fácil. Porém, a realidade para nós foi de duas
horas de trilha dura. O que nos fez refletir sobre aquelas oito horas até a
nascente do Rio dos Sinos: talvez fossem dezesseis. Não conseguiríamos fazer
num dia só, fora os momentos perdidos. Passaríamos fome, pois só tínhamos mais
duas refeições nas mochilas.
Montamos
as barracas pela primeira vez para acampar na beira do lago. Enquanto eu mantinha
aceso o fogo para cozinharmos e catava mais lenha para a refeição, meus três
companheiros de viagem resolveram tomar um banho. Apesar da serração e
da aparência de inverno, não estava frio. Os três entraram nus no lago, nadaram
e se lavaram. E desta vez fui o único que não quis entrar na água. Preferi ficar
de fora registrando o momento, fotografar a cena que finalmente meu filho me
orgulhava. Ali estava ele: ao anoitecer, no meio do nada, distante de tudo, sem
celular, internet ou sinal de wi-fi, nem mesmo luz elétrica, nu e em contato
intenso com a natureza preservada. Coisa que ia além até do que eu havia
planejado para ele naquele veraneio. Ele não reclamava de nada e aquilo me deixava
bem contente. Conversava e ria com os amigos adultos, mergulhado até o pescoço
nas águas escuras e profundas do lago, com naturalidade. Não estava com nojo
nem medo do ambiente. Acredito que ali naquele momento, meu filho cresceu
muito. Cozinhamos massa na fogueira embaixo de um enorme pinheiro, com lenha
úmida da serração. Demorou e já era noite quando demos por pronta a comida. Meu
filho se adiantou e pediu para separarmos um prato de massa antes de
misturarmos o molho de tomates e atum. Depois de 72 horas de esforço físico
intenso, meu filho fez sua primeira refeição quente: massa pura. Sim, cresceu e
me deu um alívio. Estava deixando de ser aquele monossilábico rapazinho, calado
e sem expressão no rosto, para lentamente começar a conversar e sorrir.
Dormimos
nas barracas e, enquanto meus companheiros roncavam, de novo fiquei a sós com
meus pensamentos e lembranças. Não eram as três onças pardas que vivem na
reserva que me inquietavam no escuro da noite. Estávamos, eu e meu filho, muito
mais próximos agora, não só fisicamente, apertados numa barraquinha de dois, mas
também afetivamente. No entanto, ainda enxergo um abismo entre nós e talvez
seja só uma aproximação ilusória ou temporária. Logo ele retornará a sua rotina
de vídeo games, isso é inevitável. Porém, nos dias em que está comigo, tento
oferecer experiências alternativas. Talvez, num futuro distante, ele venha a
reconhecer meu esforço. Assim como eu agora percebo o esforço de meu pai. Com
quatro filhos, era bem mais difícil! No teto de uma Belina verde, Dr. Jacques
acomodava um bagageiro para uma barraca de seis pessoas, mais todos os
apetrechos para acampar. Partia em veraneios desconfortáveis de mês inteiro, no
calor do verão, para viver alguns momentos junto com os filhos. Ele tentava valorizar
meus conhecimentos de escoteiro, que se resumiam a como espetar os ferrinhos no
chão para a barraca não voar. Ser pai não é nada fácil, mas reconheço que ser
filho também não. O problema é que somos dois (três) seres humanos diferentes,
apesar de termos uma grande semelhança de feições. Como aquele cara tão eu no espelho,
não se parece nada comigo? Atormentado pela dúvida, pela culpa angustiante de
viver, adormeci com o ruído das gotas de sereno acumulado nas flechilhas do
pinheiro caindo sobre a barraca.
Acordamos
às sete da manhã, comemos o que ainda havia de comida, desmontamos as barracas
e arrumamos as mochilas pela última vez. Sem as comidas, estavam bem mais leves
agora, mas para nós, já bem mais cansados, não fazia muita diferença. A descida
da montanha em direção ao Rio Pinheiro foi a parte mais difícil da jornada. O
peso da mochila e a aceleração da gravidade em cada passo para baixo que dávamos
na trilha, exercia um grande impacto nas articulações, músculos e pés. Segundo
Lucas, daria uma hora de caminhada do lago até a estrada para Barra do Ouro. Mas
demoramos bem mais, saímos às nove da manhã e só paramos às duas da tarde. Ricardo
ia nos mostrando os diversos tipos de florestas: cambriana, ombrófila,
ombrófila mista... Em alguns momentos, onde havia um local livre de árvores
para admirarmos a paisagem da descida, parávamos um pouco. Entre as brechas de
nuvens dava para ver as casinhas lá embaixo no vale. Estávamos perto agora.
Lá
pelas tantas, paramos para descansar e beber água de um córrego.
Largamos as mochilas no chão ao lado da trilha e sentamos os corpos suados em
pedras. Estávamos exaustos, sujos de lama, arranhados, descabelados, alguns com
escoriações dos escorregões da descida. Nisso, passam por nós, caminhando sem pressa
nenhuma, duas jovens indígenas. Elas estavam fazendo a mesma trilha que nós, vindo
do mesmo lugar e indo também para o mesmo destino, no entanto estavam com
roupas limpas e cabelo arrumado, nem suadas estavam. Nós, os quatro marmanjos
brancos, demos um oi constrangido e ficamos nos sentindo os mais incompetentes e
desajeitados caminhantes que por ali já haviam passado.
Por
eu ser quinze anos mais velho que Daniel e Ricardo e por Rodrigo ser vinte mais
jovem que eles, achei que seríamos, o mais novo e o mais velho, os que mais sofreriam na caminhada. Mas
surpreendentemente, foi um deles quem começou a ficar para trás no último dia. Ricardo
usou um blusão de lã no começo da manhã, apesar de eu avisar do risco de superaquecimento.
Logo os efeitos do blusão se fizeram sentir, era ele quem sempre pedia para
parar para um descanso. Quando chegamos ao fim da descida da montanha, já no
vale habitado fora da reserva, entrou nu para um banho no rio enquanto nós três
o esperávamos conversando sentados. Na estrada, invadia as propriedades para
comer milho verde. Comeu quatro! Quando virávamos para olhar, ele sumia nas
curvas da estrada de tão para trás que estava. Um pequeno erro assim, como usar
a roupa inadequada, pode acabar com o humor de todos. Ele sofreu um
superaquecimento que o prejudicou muito. Porém, claro que todos estávamos bem
cansados. Eu mesmo sentia algumas bolhas nos pés. Meu filho não reclamou de
nada em nenhum momento, mas percebi que seu pé estava um pouco ferido de tanto
andar.
Chegamos à "civilização", finalmente. Paramos num bolicho de beira de estrada e compramos
bolachas e água. Rodrigo tomou uma coca e Daniel e Ricardo cerveja. Esperamos o
ônibus e voltamos para casa. Tomamos um bom banho e fomos jantar num
restaurante próximo. Enchemos a pança de comida até estourar e fomos dormir em
confortáveis camas. Tínhamos cumprido a tarefa com êxito. No outro dia, contei
a um funcionário do supermercado que tinha nos visto sair de mochila nas costas
naquela primeira manhã, como tudo tinha ocorrido. Ele ficou impressionado com a
história e refletiu: Se fosse o contrário e os indígenas aparecessem na minha
casa pedindo para acampar, eu não deixaria eles ocuparem meu galpão, ainda
menos onde armazeno comida.
Aprendi
muito nessa pequena viagem a pé. Estou com cinquenta anos, numa fase da vida
que já começo a entender a finitude, a passagem, a transitoriedade. Percebi não
cristãos agirem como cristãos, partilhando generosos o que tem, e cristãos não
agirem como Jesus ensinou. Testemunhei idosos subindo trilhas íngremes guiando
os mais jovens. Reconheci o processo de crescimento e aprendizagem acontecendo
diante de meus olhos. Adivinhei que um companheiro iria superaquecer. Consegui
evitar ferimentos e exaustão até os últimos instantes. Vi indígenas calmamente consertando
máquinas e brancos desistindo de fazer isso. E principalmente, acredito que
comecei a perdoar meu pai e meu filho por não serem como eu.
Caro
Leitor, recomendo que caminhe por trilhas desconhecidas, sofra, sue muito,
passe sede e fome, durma em chão duro, fique sem sinal de celular, wi-fi ou luz
elétrica, e procure levar contigo teus amigos, pois é uma forma muito eficaz de
crescimento e aprendizado.
“Caminante, no hay camino, se hace camino al
andar”
Joan
Manuel Serrat
Bah, que texto texto lindo, Tiagão! Fiquei emocionado ao ler. Muito bacana! Parabéns e obrigado!!!
ResponderExcluirComo sempre suas histórias e percepções da vida e dos momentos são de uma sensibilidade e gentileza a toda prova.
ResponderExcluirAs memórias do coração para sempre serão lembradas.
Parabéns Tiagao, super texto. E obrigado pelo "experiente em longas caminhadas" Cara, já tinha detalhes que estava quase esquecendo, como o tombo de todos no rio nas primeiras horas de caminhada... show de lembranças. Até a próxima. Abraço.
ResponderExcluirÓtimo texto e registro dessa aventura!
ResponderExcluirSó discordo de algumas partes, como essa que eu supostamente fiquei pra tras por estar superaquecido. Simplesmeste não tinha vontade de terminar rapido a caminhada, queria curtir o mato, os papos, os rios, e comer um milho verde cru tipo bixo é coisa boa, coisa que muitaaaaaaa gente nunca fez!
E por fim, na ultima noite, nao dormimos em confortáveis camas. Eu e Daniel dormimos no chão, e tinha tanto cheiro de chulé e roupas molhadas e suadas na casa que eu fui obrigado a dormir na rede na varanda pra não vomitar (claro que tinha comido e bebido afu)!
Grande Tiago. Sempre em busca de aproximar tua cabeça de teu coração... O mais portante prá mim no teu relato, foi tua tentativa de aproximar do filho muitas vezes distante e ausente durante o ano. A estratégia era o que menos importava. Sinto gostando muito de tua maneira honesta de escrever sobre tudo aquilo que vives. Baita oportunidade que desses ao teu filho no mais amplo sentido. Acabasses por entender melhor a distancia que pöde um dia existir entre tu e teu pai, e hoje, entre tu e teu filho. Bárbaro! Fico feliz em te perceber feliz com aquilo que proporcionasses a ti, teu filho, e claro,aos teus amigos. Sigo te acompanhando e torcendo pelo teu sucesso, entendendo sucesso todo aquele esforço que conscientemente fazemos na busca de sermos felizes. Abraço fraterno
ResponderExcluirUm mergulho ao coração.
ResponderExcluirObrigada!
Grande abraço.