Drogas, Oscar Schmidt, BBB e o capitalismo
"We live in capitalism. Its power seems inescapable. So did the divine right of kings. Any human power can be resisted and changed by human beings. Resistance and change often begin in art, and very often in our art—the art of words."
Ursula Kroeber Le Guin
Parte 1: Das Drogas
Você com certeza já ouviu falar de drogas sintetizadas pelo corpo. Algumas são muito conhecidas e até já entraram para o vocabulário cotidiano do povo. As pessoas gostam de ir no parque de diversões andar na montanha russa porque “dá” adrenalina. Quem frequenta a academia fala da endorfina que o treino libera e ajuda no relaxamento. Os recém casados falam em como dormir de conchinha faz com que mergulhem na ocitocina, a droga do amor. Quem sofre de depressão e procura um médico volta da consulta com o diagnóstico que sua serotonina ou dopamina estão muito baixas. Mas algumas substâncias são absolutamente desconhecidas. Ou quem sabe até propositalmente omitidas do público leigo. Eu fiquei muito surpreso ao descobrir que o cérebro tem todo um sistema de receptores de canabinoides. Isso acontece porque o próprio cérebro sintetiza moléculas muito semelhantes daquelas que plantas como a Cannabis Sativa produzem. Essa erva, originária da China, é conhecida como maconha no Brasil. A alegria das crianças nos momentos em que estão livres interagindo uns com os outros sobre os brinquedos da pracinha vem também dessa substância que elas mesmas se presenteiam. Outra molécula que meus alunos produzem endogenamente e consomem aos montes na hora do recreio porque seus cérebros têm receptores são os opioides. Os opioides também são sintetizados por plantas, a mais comum é a papoula, comum na Turquia, também da Ásia. Os opióides são analgésicos, sua síntese no cérebro permite que as crianças brinquem sem parar mesmo se caírem, baterem ou se machucarem. A dor só vai ser sentida depois, quando o corpo “esfriar”, ou melhor, quando o efeito da droga auto administrada passar. A vida humana e de outros animais é um sopão de carne e água morna temperado com sal e muitas drogas borbulhando dentro do caldeirão do corpo. O crente em Deus pode pensar que Ele fez as plantas sintetizarem drogas para que o ser humano também encontre na natureza as drogas que precisa para sentir-se bem.
É forçoso constatar que o que estamos acostumados a chamar de drogas não são as endógenas, são as exógenas, aquelas que ingerimos, também propositalmente procurando manter a vida, ou torná-la menos aborrecida. É importante conhecermos um pouco da história de como as drogas, tanto exógenas como endógenas, foram sempre usadas pelos poderosos para controlar a sociedade e isso nunca foi sem querer. Na Idade Média, o álcool era a droga exógena mais facilmente encontrada. Era produzida fermentando cereais, mel ou frutas em água. A ignorância grassava na Europa, ninguém sabia de onde vinham as doenças. Sendo assim, espertinhos dominavam a sociedade se dizendo representantes e intérpretes de Deus na Terra, o clero. A religião era a melhor forma de controle social. A plebe, a classe dos ignorantes e despossuídos e que tinha acesso limitado ao álcool, dava a autorização para o clero dizer quem seriam as pessoas que Deus ordenava para mandar, os reis e seus amigos, ou seja, a classe da nobreza. O truque para alguém se manter na nobreza ou no clero era culpar o próprio povo, ensinando à plebe rude que qualquer mal que os atingisse era uma punição divina aos pecados cometidos pelo doente. O doente era merecedor da doença. A simples ameaça de um poder divino punidor era o bastante para que os reis fossem intocáveis, pois o sistema nervoso dos súditos estava permanentemente sintetizando as drogas relacionadas ao medo, a adrenalina e o cortisol, aquelas que preparam o corpo para a fuga. É interessante lembrar que a etimologia da palavra súdito vem do latim “subditus”, ou seja, alguém que se coloca numa posição inferior e se submete a outro, aquele que se sujeita a obedecer indivíduo mais poderoso. Muitas moléstias naquele tempo vinham da água contaminada com algum microorganismo e os ricos podiam se proteger só consumindo vinho, hidromel, destilados ou cerveja. O álcool desinfectava a bebida. Sidra quentinha era servida logo pela manhã até para crianças. Os nobres queriam que os plebeus acreditassem que os reis eram puros de alma, por isso não adoeciam e por isso eram uma casta privilegiada, nobre, e merecedores da riqueza. A verdade é que a possibilidade de estar sempre intoxicados por álcool os imunizava de muitas enfermidades. O consumo em grandes quantidades da droga álcool era um fator determinante na organização social. Os bêbados reinavam.
O corpo, de certa forma, também produz álcool, ao digerirmos carboidratos, a fermentação dos açúcares libera pequenas quantidades na circulação. Um algodão doce deixa qualquer criança feliz por alguns momentos, mas logo sonolenta e aborrecida. Os adultos preferem doses maiores. Nosso cérebro não tem receptores de álcool, no entanto essa droga modifica o comportamento de muitos neurotransmissores dificultando sua atuação. O álcool causa relaxamento, desinibição e perda do controle motor. E esse é o estado alterado da consciência que as pessoas buscam. Ficar um pouco tonto faz os adultos rirem como crianças no gira-gira da pracinha e, como elas, esquecem que vão ter que trabalhar e lidar com dominantes indesejados. Porém, geralmente, alguém só percebe o efeito desejado em quantidades intoxicantes. Os cristão devem lembrar das passagens bíblicas em que Jesus sempre dava um jeito de servir vinho para seus seguidores. Além de purificar a água de microrganismos patológicos, sua intenção também era de alterar suas consciências para que refletissem sobre ideias inovadoras para a época como amar mesmo os dominantes, invasores romanos, não tentar acumular riquezas, mas sim dividi-las com todos, mesmo pobres de outras religiões.
Enquanto a elite europeia ébria debatia seriamente o sexo dos anjos, na África, muito mais avançada, as discussões estavam em outro nível. Lá, o povo fervia água para beber com sementes tostadas de uma frutinha vermelha comum em arbustos na Etiópia. Aqui no Brasil essa infusão é conhecida como café. Além de esterilizar a água com a fervura, as sementes liberam na água uma droga psicoativa que deixava o cérebro muito mais ágil e alerta, em vez de amortecido por um neurodepressor como na solução europeia. Como no caso do álcool, o cérebro não tem receptores de cafeína, a droga liberada pela semente etíope, no entanto, inibe a ação da adenosina, molécula endógena que tem receptores no cérebro e regula o cansaço e o sono. O hábito de beber café era acessível à todos, democrático. O resultado dessa cultura é que os africanos trouxeram para a humanidade incríveis avanços na ciência e no pensamento filosófico. Europeus, quando queriam estudar, precisavam viajar da periferia do mundo onde viviam até os grandes centros do conhecimento na África, onde podiam aprender sobre matemática, física, astronomia, engenharia, arquitetura, química, metalurgia, medicina, agricultura, saneamento básico, literatura, arte, poesia, hábitos higiênicos, filosofia, sociologia, e toda uma universidade de assuntos. O conhecimento era para todos, quem quisesse aprender tinha acesso facilitado a tutores e a droga que deixa o cérebro afiado. Foi exatamente lá, no continente berço da humanidade, que as primeiras universidades e bibliotecas de pesquisa surgiram, muito pelo hábito de consumir o líquido fervido daquela frutinha vermelha da Etiópia. Algoritmo, cifra, algarismo, zênite e álgebra são palavras árabes, língua falada no norte da África e no Oriente Médio. Todas as estrelas visíveis do céu tem nomes árabes e até mesmo os algarismos que usamos são arábicos. Pense, caro leitor, que complicação seria se computadores e calculadoras atuais apresentassem resultados em algarismos romanos. Com essa simples reflexão podemos comparar a qualidade de uma e outra proposta de drogadição para ter uma ideia da diferença cultural da época. Aqui, de novo, o consumo da droga cafeína, em grandes quantidades, pode fazer um povo inteiro perpetuar a vida e até se aproximar da virtude. Não é a droga o problema.
Os eruditos europeus estudavam na África e por lá se viciavam no café. Quando voltavam para Europa, alguns traziam na bagagem um saquinho de sementes do cafeeiro etíope na esperança de plantar em casa um arbusto produzindo a droga que os transformava em pessoas inteligentes. Mas a planta necessita de um solo e clima muito específicos, na Europa nunca conseguiram que germinasse. Porém, os milagres do grão africano chegaram aos ouvidos dos nobres, ricos e poderosos que mandavam seus navios trazerem as sementes em sacas, já tostadas e prontas para o consumo. A moda se espalhou, botecos surgiram em tudo que é esquina europeia anunciando que ali tinha a droga da hora para uma dose rápida. A placa da porta já anunciava, para ninguém sofrer procurando: Café. Não era uma taberna qualquer onde ignorantes intoxicados com álcool se entorpeciam e brigavam. A dose era cara, produto importado, no entanto operou milagres. Toda a renascença e depois o iluminismo foi possível porque regados a café, nos ensina Michael Pollan, jornalista agnóstico americano, professor na Universidade de Harvard (universidade essa fundada em 1636 por um clérigo puritano inglês, bem quando o café começou a chegar nos Estados Unidos talvez trazido pelo próprio John Harvard, insatisfeito com o obscurantismo da Igreja Anglicana). Diderot tomava 72 taças de café por dia, Balzac achava que os efeitos da droga no cérebro eram maiores se os grãos fossem mastigados, sem diluição em água. Especialistas de cada área se reuniam nesses estabelecimentos especializados na droga africana para se drogar e debater seus interesses, certos de que aquela substância os faria inovar. Os matemáticos se encontravam no café da rua X, os poetas naquele da esquina da rua Y e os políticos no da praça Z. Mudanças estruturais na sociedade começaram a ser construídas nos “coffee shops”. A revolução francesa com certeza saiu da cabeça de pensadores iluminados pela cafeína, cabeças da nobreza bêbada começaram a rolar e o estado se separou da igreja. De repente, como mágica e sob efeito da droga, os europeus passaram a acreditar que o conhecimento acumulado pelos africanos era, e sempre havia sido, europeu, assim como o hábito de tomar café e a crença que as primeiras universidades haviam surgido na Europa. Europeus passaram a voltar à África não mais para estudar, mas sim para matar, roubar, escravizar e colonizar.
Imagine, caro leitor, como era a Europa antes das grandes navegações do século XV. Os europeus tinham uma dieta monótona e insossa e a higiene de um chiqueiro. Os excrementos eram jogados no meio da rua. Comiam cevada, centeio e aveia na forma de pães pretos e mingaus, além de deixar os grãos fermentando em água para fazer cerveja. Plantavam cebola, nabo, repolho, couve e ervilha, serviam para fazer sopa. Os ricos caçavam porcos, cisnes e faisões. Frutas eram poucas: morangos, framboesas, amoras, cerejas e uvas. Mas, com o café, vieram também as ideias de viajar para além mar para trazer mais variedade para a mesa. Foi uma revolução na dieta europeia e no saneamento básico. Além do café eles passaram a trazer trigo, batatas, milho, tomate, feijão, cacau, abacate, amendoim, pimentão, pimenta do reino, noz-moscada, cravo-da-índia, canela, banana, animais como o peru e até outras drogas que ficaram tão famosas quanto o café: açúcar e tabaco. Hoje em dia os europeus fizeram o mundo inteiro acreditar que suas cidades sempre foram muito limpas, o pão de trigo é francês, o chocolate sempre foi suiço, as batatas são inglesas, o cachimbo é uma invenção escocesa e o molho de tomate surgiu na Itália.
O café era caro, privilégio destinado às mentes esclarecidas da elite, os pensadores da nova sociedade. Ao povão restava tentar fermentar cerveja em casa se quisesse se alegrar um pouco ou esquecer. Porém, quando a revolução industrial começou a modificar a economia europeia, os ricos logo perceberam que não poderiam mais deixar os pobres se embriagarem, o trabalho nas máquinas não rendia. A solução foi substituir a droga que o povo estava habituado a tomar para ter sua consciência alterada nos poucos momentos de ócio que tinham. Se o álcool é um depressor do sistema nervoso, a cafeína é um estimulante cerebral. O álcool desacelera o cérebro, deixa a pessoa sonolenta, tonta e confusa, além de violenta. Já o café acelera a mente, aumenta o estado de alerta e a capacidade de concentração, diminui a fadiga, melhora o humor e o bem estar, e ainda tem o poder de aumentar muito o tempo de vigília. Droga ideal para um operário de fábrica. O uso do álcool passou a ser criminalizado e o uso da cafeína estimulado. Os donos dos meios de produção determinaram que os operários passassem a fazer momentos de pausa no trabalho para o consumo da droga, os “coffee breaks”. Vinte minutos pela manhã e vinte minutos à tarde que eram remunerados para parar de trabalhar e se drogar. Assim, o café passou a ser servido de graça para que os operários aguentassem turnos mais longos de trabalho sem reclamar do esforço no trabalho e com ganhos de produção. O investimento na cara droga importada da África acabava dando lucro. Os dominantes sempre tentaram controlar como a plebe rude pensa e age, o controle das drogas permitidas ou não são uma ferramenta tão boa quanto a religião para esse fim.
As drogas são cheias de possibilidades tanto boas como más, a reflexão a respeito delas não é nada nova. Os gregos tinham uma palavra muito ambígua para droga, “phármakon”. Significava ao mesmo tempo benção e veneno, remédio ou antídoto, tudo dependia da dose administrada ao paciente. Há ainda uma última tradução possível para o termo que explicita o quanto as drogas podem ser usadas pelos dominantes da forma que lhes for mais útil: Bode expiatório. O esforço humano para escapar do sofrimento cotidiano sempre teve nas drogas um socorro imediato. Uma sopa de galinha pode fazer o sujeito ficar mais disposto, mas mastigar a folha da coca como os povos andinos funciona muito mais rápido e não engorda. Um dos efeitos da maconha é na memória, faz esquecer, mas também funciona para editar o pensamento. Esquecer é tão importante para consciência quanto lembrar, nos exortava a refletir o judeu israelense Raphael Mechoulam, falecido professor de química na Universidade Hebraica de Jerusalém. Ou você gostaria de ficar lembrando o que comeu na janta de 27 de julho de 1999 ou de todos os rostos que viu sábado no supermercado? Não é à toa que temos receptores canabinoides no cérebro e não servem só para alegrar às crianças na pracinha.
As drogas alteram nossa consciência para nos fazer esquecer, “viajar”, ter ideias, inovar, alegrar ou entristecer, alucinar, nos levam às paixões e brigas, à sonolência ou à insônia, a cura ou a doença. Na minha infância, as farmácias eram conhecidas como drogarias. A palavra “farmácia” vem do termo grego “phármakon”. Atualmente pensamos em drogas como substâncias que são nocivas à saúde. Mas é uma interpretação recente, induzida por poderosos na sociedade contemporânea. As drogas não são boas nem más em si, o uso que se faz delas é que pode ser vicioso ou virtuoso. Outra coisa importante a se perceber é que drogas não são somente ingeridas ou inaladas, exógenas. Elas também são sintetizadas no nosso próprio organismo para nosso bem, endógenas. No entanto, é extremamente importante constatar que o controle social é exercido em grande parte com a regulação das drogas tanto exógenas como endógenas. As substâncias exógenas, que vem de fora do corpo, é fácil perceber como são controladas: legisladores, orientados ou pagos por quem domina a sociedade, determinam quais são as proibidas, controladas ou liberadas. Você, caro leitor, agora deve estar se perguntando: como se controla o uso das drogas endógenas, produzidas por nós mesmos dentro do nosso corpo? Ora, no início desse texto já dei algumas respostas para essa pergunta quando falei do controle que professores exercem sobre as crianças no tanto de tempo que têm para brincar na pracinha ou das lorotas religiosas que os nobres contavam para plebeus da Europa na Idade Média. Mas a manipulação do que jovens pobres, despossuídos, ignorantes e dominados vão sintetizar ou não nos seus cérebros foi se sofisticando muito ao longo do tempo por pessoas que estavam bem drogadas.
Parte 2: Do Oscar Schmidt
Não quero desviar do assunto da drogadição endógena ou exógena, mas quero ilustrar o texto com minha própria experiência. Talvez você, caro leitor, perceba uma guinada no ritmo da prosa, mas acredito que seja necessário para esclarecer onde quero chegar com essa conversa. Eu era um adolescente de 18 anos em 1987. Naquele tempo, aos domingos, costumava andar de bicicleta pela manhã, o que me enchia a cabeça de drogas endógenas que me davam prazer, e relaxava na frente da TV à tarde, tomando um nescau, droga exógena açucarada que me dava uma rápida sensação de euforia seguida de uma depressão pela abstinência. A gente assistia o que estivesse passando na TV, gostasse ou não. O tédio era rotineiro para quem não quisesse estudar para as chatíssimas cadeiras de engenharia, como no meu caso. Havia somente uns quatro ou cinco canais, as escolhas eram poucas. Apertei o seletor do controle remoto, uma novidade tecnológica em prol do sedentarismo, e parei na RBS. Estava passando uma partida de basquete ao vivo, me pareceu melhor que o Sílvio Santos. Era a final do Pan Americano de Indianápolis entre Brasil e Estados Unidos, faltavam só seis minutos para terminar o jogo. O narrador gritava de emoção a cada cesta marcada, aquilo me chamou a atenção. Meu cérebro passou a sintetizar drogas endógenas na mesma hora como se tivesse voltado para pracinha da minha infância. Fui aos poucos entendendo o entusiasmo do locutor: o Brasil tinha tirado uma vantagem de 14 pontos do primeiro tempo passado os americanos no placar pela primeira vez. O jogo era em solo americano, nunca os Estados Unidos haviam perdido uma única partida no seu próprio território daquele esporte que eles mesmos tinham inventado. Oscar Schmidt era o cestinha do jogo, com dois metros e seis de altura parecia até mignon perto dos adversários, um mongolão esquálido ao lado dos monstruosos estadunidenses e já chorava em quadra com a simples possibilidade que se avizinhava de ganhar. O impossível estava se tornando realidade? Era um sonho? Davi vencer Golias não era só um mito bíblico? O narrador lembrava que Oscar tinha recusado um contrato milionário para jogar na NBA quatro anos antes só para não perder o direito de jogar pela seleção brasileira, era o sacrifício individual pelo bem coletivo. Eu não gostava de basquete, não sabia o porquê do jogo, só liguei a TV porque era a única coisa à se fazer para matar o tempo no final de semana, mas me emocionei e chorei junto naquela vitória histórica. Meu cérebro se inundou de drogas que eu mesmo sintetizei às pressas e sem nem perceber. A seleção brasileira humilhou a americana no seu campo de batalha, com as regras e armas que eles mesmos tinham criado. Passados quase quarenta anos daquele domingo memorável, aquela partida segue sendo uma das maiores conquistas do esporte nacional e uma sólida memória no meu cérebro.
Na minha cabeça de adolescente, Oscar Schmidt se juntou a Ayrton Senna no panteão de heróis da pátria. Ayrton era outro que a televisão nos trazia, ufanava, emocionava, e fazia sonhar aos domingos dos anos oitenta. Meu cérebro estava viciado nas drogas endógenas que sintetizava quando assistia uma corrida. Contava os dias e as horas para a próxima dose. Eu, um jovem muito impressionado com o entusiasmo dos discursos dos narradores televisivos, passei a sonhar em ser outro herói, viciado que estava nas substâncias auto administradas. Os feitos de Oscar foram se acumulando: participou de cinco olimpíadas, foi o maior pontuador da história do basquete, foi o maior pontuador da história dos jogos olímpicos, Entrou para o Hall of Fame do basquete mundial, foi o maior pontuador em um único jogo de olimpíada, tudo isso além daquele ouro nos jogos Panamericanos de 1987. Ayrton era ainda mais eficaz na luta por vitórias: galgava posições nas corridas com dificuldade, sempre com carros inferiores obtinha resultados surpreendentes com extremo esforço, chegando mesmo a ter que ser retirado do carro carregado e, trêmulo, não ter forças para erguer o troféu no pódio. O caminho de ferro modorrento que a família e a sociedade me conduziam, não me agradava em nada. O vício nas drogas endógenas que eu mesmo me administrava em doses cavalares todo domingo, me levavam a ter a consciência alterada e acreditar que só havia aquela alternativa de vida. Eu não era um mongolão de dois metros e cinco como Oscar, nem tinha tido uma infância dentro de um kart como Ayrton, e o problema que mais me atormentava é que ainda não tinha nem ideia do que queria ser quando crescer. Meu tempo estava passando, eles começaram muito jovens para ter aquele sucesso todo e eu, angustiado, era arrastado pelo fluxo inexorável da existência, seguindo os trilhos já bem assentados por meus ascendentes, que me conduziam para uma vidinha pacata.
Felizmente, a ingenuidade atormentada da adolescência é passageira se tens a sorte de encontrar as pessoas certas ou passar por experiências iluminadoras. Aos vinte anos, resolvi sair da “periferia do capitalismo” em que vivia, como diria Machado de Assis, pulei do trem da certeza que minha família havia me construído e fugi para “ler o livro do mundo”, como ensinava René Descartes. Sentia que o pequeno trecho que tinha acesso do texto da vida era insuficiente para esclarecer as inquietações que me desassossegavam. Fui, como Descartes, para Holanda, um lugar bem mais cosmopolita que minha Porto Alegre natal. Lá não tinha Nescau, droga exógena, cheia de açúcares, que mantinha meu cérebro amortecido e crente nas verdades dos locutores esportivos. Passei a tomar café e ignorar as corridas de domingo ou os feitos de Oscar Schmidt. A influência religiosa já não existia naquele país depois de 400 anos de drogas trazidas do além mar, todo mundo era ateu e o estado totalmente laico. Pude sair do ármario do meu ateísmo quando consegui me fixar como trabalhador ilegal em Amsterdam, lugar que foi o centro do mundo no século XVII, época em que Descarte por lá esteve e exatamente por isso migrou para lá. Foi bem ali que nasceu o capitalismo, especulando-se com quanto e que tipo de especiarias os navios trariam do oriente, que tipo de droga viria para tornar a vida menos insossa, tediosa e aborrecida. Outra invenção holandesa foi o programa de televisão “Big Brother”, já no final do século XX. Na minha passagem por aquele país, fui muito explorado por patrões batavos corruptos e indiferentes com meu sofrimento. Não é de se admirar, mas isso eu não poderia saber na minha tenra idade, pois exploração de pobres e especulação financeira são as bases da economia mundial e do capitalismo desde que o café chegou na Europa e fez aqueles ignorantes passarem a achar que tinham inventado a roda.
Parte 3: Do BBB
Silvia Viana Rodrigues é uma socióloga ateia brasileira, professora da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. Ela argumenta, em sua tese doutoral que virou livro mais tarde com o nome de Rituais de Sofrimento, que o programa de televisão BBB ensina aos telespectadores a aceitar como normais os meandros mais repugnantes do capitalismo. O “reality show” inventado na Holanda, berço do capitalismo, está em sua vigésima sexta edição no Brasil e é um sucesso absoluto. Algumas votações on-line do programa chegaram a ter 1,53 bilhões de votos. O nome do programa vem do livro “1984”, do escritor ateu inglês Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell. Nesse livro de 1949, logo após o final da segunda guerra mundial, o autor intui um futuro distópico para dali 35 anos onde há uma grande tela na parede em cada cômodo de todas as casas, que observa tudo que todos fazem a todo tempo (Blair errou a previsão só no tamanho da tela: ela não é grande na parede, mas pequeninha na nossa mão). Essa tela é conhecida pela população como o irmão mais velho (“big brother” em inglês), aquele irmão que cuida dos irmãos menores. No entanto, o irmão mais velho não só vigia os mais novos, mas também castiga condutas consideradas desviantes da ordem social criada pelo estado. Os dominantes querem controle TOTAL sobre os dominados. Uma conduta desviante passível de punição no livro era deixar de comparecer às “sessões de ódio”, uma espécie de cinema em que todas as tardes a comunidade assistia notícias sobre guerras fictícias que o país estaria atravessando e os espectadores eram estimulados a torcer contra os inimigos da pátria com raiva, aos gritos. O livro é um esforço de Blair para alertar os leitores sobre os perigos do totalitarismo, o controle total, tanto do fascismo como do nazismo. No entanto, os criadores holandeses e os produtores aqui no Brasil, inverteram a intenção do autor, tiraram o caráter de denúncia para tornar um despretensioso “jogo” para entreter famílias de bem à noite. Antes do início da temporada do programa, há uma seleção de voluntários para participar, como numa entrevista de emprego. E como num emprego, a atração de voluntários é feita com a promessa de uma premiação em dinheiro em troca de uma total sujeição às regras da empresa, ainda que sejam sacrificadas, ridículas ou mesmo no meio da madrugada. O contrato prevê inclusive que a produção do programa tem poderes sobre os corpos dos participantes, as palavras são bem escolhidas por advogados para evitar processos posteriores, mas é algo como: “estão liberados para torturar física e psicologicamente”. Nessa seleção, são respeitadas as cotas exigidas por lei, metade homens, metade mulheres, há participantes negros, gays, idosos, pobres, pessoas de diferentes tendencias políticas e religiosas, deficientes físicos, deprimidos, TDAH, etc. Os interessados são sempre pobres, subcelebridades desempregadas, pessoas desesperadas por algum dinheiro ou mesmo uma visibilidade social que de outra forma seria impossível. No “jogo”, os sortudos contratados são confinados numa casa/estúdio sem janelas para o exterior e não podem ter nenhum contato externo, todos devem ser alienados do mundo ao seu redor para não ter nenhuma distração dos objetivos do jogo. As regras são inventadas pela produção e podem mudar a qualquer momento, a insegurança é total. Algumas vezes os participantes são divididos em equipes, que competem entre si. Os jogadores são desafiados a suportar tarefas humilhantes por horas e muitas vezes dias, Rituais de Sofrimento, como disse Silvia Viana, para atingir alguma premiação ou simplesmente o direito de não serem “eliminados”, ou melhor, demitidos. Aliás, esse é o objetivo do jogo, ser o único a não ser eliminado, sobreviver até o fim. Os jogadores estão permanentemente sintetizando drogas endógenas relacionadas ao medo, assim como os súditos da idade média. Aquele jogador que se sujeita a tarefas extenuantes, aceita sem reclamar as humilhações mais constrangedoras, dedura os que não seguem as regras, corre para atender os chamados do chefe, esse terá mais chances de não ser demitido. As atividades propostas colocam os jogadores uns contra os outros, estimulando alianças de ocasião, intrigas, fofocas e traições. Vale tudo para convencer o patrão de quem é mais servil aqueles absurdos, mais capacho para obter alguma vantagem financeira, um lugar melhor para dormir com privacidade, uma liderança temporária, uma saidinha do confinamento ou até uma alimentação melhor. A organização do programa conduz as atividades para produzir falsos heróis e vilões caricatos para que o engajamento dos telespectadores seja ainda mais efetivo: um bilhão e meio de votos. Bilhão com B.
O BBB é apresentado todos os anos, já se tornou uma tradição brasileira, de janeiro a abril, exatamente no período de férias dos jogadores de futebol ou outros esportistas, no hiato anual dos grandes campeonatos nacionais e estaduais, quando os telespectadores estão sem estímulos neurológicos endógenos. É uma competição que faz os telespectadores se colocarem no lugar dos participantes, se identificarem com um ou outro, sonhar em ser um deles, torcer fanaticamente para que seu jogador preferido se dê bem em algum momento, obtenha algum ganho pessoal ou para seu time. O BBB funciona para o povo como Oscar Schmidt ou Ayrton Senna funcionaram para mim na adolescência, um criador de ídolos, de falsos heróis da pátria. O programa tem a única função de manter o controle que a elite brasileira exerce sobre a plebe rude, induzindo a secreção de drogas endógenas pelos cérebros viciados dos pobres. Os dominantes da sociedade brasileira, donos dos meios de produção e comunicação, controlam que tipo e que quantidade de drogas os dominados vão consumir, como professores fazem com as crianças na pracinha da escola.
Veja como funciona de forma semelhante aos esportes no controle social. Oscar Schmidt aguentava treinamentos extenuantes para atingir a perfeição, aceitava qualquer sacrifício para o bem do time, os Rituais de Sofrimento de Silvia Viana, até jogar com a mão quebrada, fazia tudo para não ser eliminado antes do fim do campeonato, suportava dores horríveis, jantava conectado a aparelhos de ultrassom para aproveitar o tempo fora do “serviço” para sua fisioterapia, estava sempre drogado com analgésicos e anti-inflamatórios exógenos porque os endógenos não bastavam para o tanto de esforço físico que fazia. Oscar era absolutamente servil aos interesses dos patrões do clube em que trabalhava e era uma excelente ferramenta de fabricação de seguidores, multiplicadores na fé que só há uma vida possível, a da competição. O mais importante é que sob o efeito das drogas endógenas auto ministradas, a pessoa acredite que se não vencer é porque não se esforçou o bastante. Assim como os participantes do BBB, Oscar queria ser conhecido como aquele que se sacrifica para permanecer no jogo, não ser eliminado. Como o BBB foi criado com a intenção de substituir os esportes nas férias dos atletas, na entressafra dos campeonatos, serve para manter a mente dos dominados intoxicada com as mesmas drogas endógenas que os narradores esportivos fazem o povo acreditar, com sua exaltação, discursos moralistas e ufanismo barato, que só há aquela vida possível. O povo está viciado em procurar virtude em falsos heróis nacionais inventados para manter o “status quo”.
Quando penso em competições como o BBB ou as esportivas de Oscar Schmidt ou Ayrton Senna, sempre fico pasmo em pensar o porque as pessoas estariam tão dispostas em se sacrificar para obter um ganho tão improvável, raro, pessoal e egoísta. não consigo deixar de lembrar da obra do católico francês Étienne de la Boétie, Discurso da Servidão Voluntária de meados do século XVI, Bem quando a Europa estava dominada por uma nobreza ébria que assustava os plebeus com ameaças de um deus inventado. Étienne era um rapaz de 18 anos quando escreveu seu pequeno livro, de poucas páginas. Ele se deu conta que as pessoas se submetem a um governante tirano voluntariamente. Os súditos são em muito maior número, poderiam facilmente derrubar o rei, mas eles querem ser submissos, segundo ele, pelo hábito de que sempre foi assim. A situação lembra as centenas de crianças na escola se submetendo a dois ou três docentes avisando que acabou o recreio, porque se submetem? Sempre teve um tirano que manda e um monte de gente que obedece, os dominantes fazem os dominados acreditarem que só há uma vida possível e ela é assim. Os próprios pais dos alunos alertam para obedecer os professores na escola. Étienne fala inclusive do amortecimento psíquico que estão submetidas as populações pela construção “anestésica” de tal cultura. Perceba que o autor não fala de drogas endógenas, nem tinha como ele saber disso ainda, mas ele já intuiu de que tem de haver uma droga invisível por aí, porque o entorpecimento das massas é evidente. Os nobres querem a resignação da submissão, mas Étienne prega uma resoluta conscientização do povo em não servir. Segundo ele, só a educação para a conscientização de que um outro mundo é possível mudaria a sociedade. Étienne era católico, mas tolerante com aqueles de seu tempo que pensavam diferente, era muito amigo do filósofo ateu Michel de Montaigne e de protestantes luteranos. Um guri de 18 anos pensar assim tão diferente de todos os outros cidadãos é porque provavelmente tinha acesso a drogas exógenas diferentes daquelas que todo mundo estava viciado. Talvez umas taças de café, droga cara e rara na sua época.
Jeremy Bentham, filósofo utilitarista ateu inglês, viveu no final do século XVIII, na mesma época em que as cabeças dos nobres começavam a rolar na revolução francesa do outro lado do Canal da Mancha. Bentham era um erudito viciado em café. Dizem que costumava frequentar a mais famosa “coffee shop” da região de Oxford, a “Harper’s”, e foi lá que primeiro propôs a separação entre igreja e estado. Outra ideia que surgiu nas conversas iluminadas pela cafeína no cérebro de Bentham foi o Panóptico: um presídio com uma arquitetura tal que os confinados sabiam que estavam sempre vigiados, mas não podiam ver os vigilantes, assim como no programa BBB. Dessa forma simples, barata e inteligente, os presos estariam sempre estressados, se sentindo examinados, produzindo para seus corpos abundante cortisol, a droga endógena do estresse. A ideia era boa, a cadeia nem precisaria ter vigilantes, temendo punições de um observador invisível que possivelmente estivesse olhando e avaliando, a conduta dos encarcerados seria auto vigiada. O Panóptico de Bentham, nunca precisou ser construído, pois aos poucos os dominantes perceberam que havia forma muito mais eficiente e inteiramente gratuita para manter o controle social.
Parte 4: Do capitalismo
O filósofo francês, Michel Foucault, teve uma vida difícil. Nasceu em família católica de classe média alta do interior da França em 1926. Seus pais eram médicos, assim como seus avós, todos queriam que ele também seguisse carreira na medicina. O matricularam numa rígida escola católica. No entanto, suas inclinações eram diferentes dos desejos familiares. Michel queria estudar história, o que causava um grande desgosto em todos seus familiares. A tensão ficou insustentável quando o rapaz descobriu-se homossexual e se revelou ateu. Michel não aguentou a pressão e tentou o suícidio. Como era comum na época, tanto para suicidas, ateus ou gays, seus pais o internaram num hospício por acreditarem que estava louco. O manicômio foi profundamente influenciador nas coisas que o jovem passou a pensar, assim como a escola católica. Estudar filosofia e depois psicologia, uma ciência nova, foi um meio termo que a família aceitou. Foucault passou a estudar o poder da família sobre os indivíduos, assim como o controle exercido pelo hospital psiquiátrico e pelas escolas sobre os corpos dos pacientes e alunos. Acabou fazendo o que queria desde o início, estudou a história dessas instituições para saber como chegamos onde estamos.
No seu livro mais famoso, Vigiar e Punir de 1975, Foucault faz a reunião de vários estudos históricos. Lembra que, na antiguidade, os desviantes da ordem social eram punidos com torturas públicas, muitos gritos de dor, choro, súplicas por perdão, derramamento de sangue, desmembramento de corpos, até o silêncio da morte. A população era convidada a assistir o suplício para que a droga do medo inundasse as carnes dos cidadãos para não se atreverem jamais a questionar a ordem social imposta pelo monarca. Ao concluírem que esse método muitas vezes gerava muita revolta e indignação na plebe, os dominantes passaram a usar a guilhotina, a decapitação proporcionava uma morte mais rápida e sem dor para o condenado. O método de ameaçar com punições divinas também não era muito eficaz, mas já era melhor e mais econômico em relação ao suplício ou à degola. Finalmente, com o renascimento, o iluminismo e a cafeína, a privação da liberdade do indivíduo infrator em jaulas, as atuais cadeias, surgiu na cabeça dos poderosos como solução para manter o controle social. Os presídios não existiam até aí. Foucault chama de “o grande encarceramento” o que passou a acontecer com esse novo dispositivo de exercício de poder criado pelos dominantes, uma novidade tecnológica em segurança pública. Seria uma punição sutíl, para os padrões da época, mais sobre as almas dos condenados do que sobre seus corpos, a tortura psicológica seria prolongada no tempo, sem gritos de dor, sangue ou reprovação pública, só com a permanente sintese de drogas endógenas relacionadas ao medo. Foucault faz uma profunda análise da cadeia sugerida por Bentham, o panóptico, e percebe que a ideia é boa. No entanto, argumenta que a ideia do panóptico foi construída, de certa forma, mas não como imaginou Bentham, mas sim com outros dispositivos de poder sobre o controle social. Ele percebe semelhanças na arquitetura e funcionamento de algumas instituições modernas: cadeias, escolas, quartéis, fábricas e hospitais. Segundo Foucault, todas controlam os corpos mais ou menos da mesma forma. Ele chama a atenção que os prédios dessas empresas têm grandes corredores com salas que dividem os “clientes” em segmentos. Na escola, as crianças são distribuídas nas salas por idade. No hospital, os doentes são separados por patologias. No quartel, os soldados são agrupados por armas. Na cadeia, a seleção é feita por crimes. Na fábrica, em cada sala os operários fabricam um produto. Segmentados, os indivíduos podem ser mais facilmente vigiados e controlados.
O que mais me interessa no livro de Foucault é a análise que faz da escola. Ele descreve a escola como uma instituição que sequestra as crianças, as vigia o tempo todo, e as obriga a desempenhar tarefas que para elas muitas vezes são no mínimo desinteressantes, mas geralmente desagradáveis. Foucault chama as escolas de dispositivo escolar de exercício de poder. Acredito que tenha se inspirado no livro O admirável mundo novo, do escritor agnóstico inglês Aldous Huxley, publicado em 1932. A descrição das escolas de Foucault coincidem com as de Huxley em muitos aspectos, principalmente na tentativa de obter controle total, a educação deve ser totalitária sobre os corpos das crianças e sobre o que devem pensar. Tanto nas fictícias escolas de Huxley como nas escolas reais analisadas por Foucault, as crianças são disciplinadas a atender a comandos automaticamente. Se soar a sirene, como na fábrica ou no quartel, as crianças devem se colocar em fila esperando as ordens do professor. A repetição diária dessa e outras condutas vão sendo internalizadas. Foucault chama de adestramento dos corpos, Huxley de adestramento das mentes. Para Foucault, o poder sobre o corpo das crianças deve ser exercido de forma infinitesimal, até no controle dos esfíncteres ou no domínio da fome, controle do sono ou desejo de se mover, como sentam na cadeira ou como seguram o lápis, como desenham a letra A ou que canção devem cantar quando solicitados. O assédio de doutrinação do dominante sobre o dominado deve ser exercido com tal insistência que destrua, pelo medo de punição (e a síntese de drogas endógenas relacionadas ao medo), qualquer resistência, até que se obtenha o resultado desejado, corpos dóceis. Como Huxley, Foucault também observa que a escola não visa desenvolver crianças com pensamento crítico, mas sim alunos imediatamente obedientes. Foucault não fala em nenhum momento do livro em drogas endógenas, mas se refere a uma microfísica do poder, que seria o “controle das almas” das crianças. Eu chamaria de microquímica do poder, porque as armas usadas pelos dominantes são químicas, drogas produzidas pelas próprias crianças dentro de seus corpos, mas espertamente manipuladas pelos professores, exatamente como o clero fazia com a plebe na idade média. O corpo dócil, que obedece imediatamente, se acha até esperto, porque nem chega a produzir drogas que dão desprazer ao “usuário”.
Para esse escriba, caro leitor, o que Foucault não menciona está explícito em sua obra: A forma com que as escolas vão aos poucos viciando as crianças em drogas endógenas até tirar todo brilho e alegria da juventude para obter um ser humaninho embotado, acrítico e obediente, sem iniciativa nenhuma. Foucault tinha “lugar de fala”, como nos ensina Djamila Ribeiro, filósofa candomblecista brasileira, sofreu em sua família, sofreu em rígidas escolas católicas e sofreu também em manicômios, insistentes tentativas de dissuasão, apagamento e invalidação. Não queriam que fosse gay, não queriam que estudasse história, não queriam que fosse ateu, lhe acusavam de loucura. Milagrosamente conseguiu se salvar se afastando das instituições que lhe oprimiam, fugiu das drogas exógenas que lhe injetavam e das drogas endógenas que lhe obrigavam a sintetizar no seu corpo. Foi ao mundo e exerceu no pleno sua homossexualidade e seu ateísmo, experimentou todo tipo de drogas exógenas procurando um estado alterado de consciência e não o embotamento dos hospitais psiquiatricos, escreveu livros sobre a história da sexualidade, a história do poder, a história da loucura, história da clínica médica. Se esbaldou na vingança aos seus algozes, destruiu muitas das crenças de seu tempo e se tornou uma referência mundial em filosofia. Até a sua morte foi um ato político, Foucault foi uma das primeiras figuras públicas da Europa a morrer de AIDS, conhecida à época como a peste gay, em 1984. Ele não quis que esse fato fosse omitido no seu obituário, como que afirmando ao mundo que assumia e tinha orgulho de suas condutas. Michel Foucault foi para a comunidade acadêmica como um “phármakon”: alguns o viam como benção, outros como veneno, alguns o tinham como remédio para a sociedade, outros como antídoto para o embotamento social. Certamente serviu de bode expiatório para muitas saídas do armário ou debates acadêmicos. No meu entender era neuro divergente, acredito que autista: tinha um hiperfoco poderoso, na escola e na faculdade era considerado excêntrico e solitário, não se encaixava nas instituições, na juventude tinha explosões de raiva e se tornava agressivo contra os colegas, tentou o suícidio mais de uma vez, usava drogas, rigidez cognitiva tentando sempre ensinar as pessoas sobre as coisas que acreditava. Foucault tinha muitos traços de TEA, mas na época em que viveu os médicos nem sabia diagnosticar autismo de alta funcionalidade.
Perceba agora, caro leitor, que todo esse texto está cheio de datas, mas você nem percebeu nada de errado nelas. Citei 1987 quando falei de Oscar Schmidt, Lembrei que as grandes navegações européias para além mar começaram no século XV, afirmei que a Universidade de Harvard foi fundada em 1636, Étienne de la Boétie escreveu o Discurso da Servidão Voluntária no século XVI, falei que Foucault nasceu em 1926 e fui enumerando muitas outras datas. Usei os primitivos algarismos romanos e os mais modernos algarismos arábicos. Se procurar na internet, o Google vai confirmar todas as datas que usei. Mas uma coisa tenho certeza que lhe passou batido, você não reclamou, nem parou de ler o texto se chegou até aqui. O que nem você nem o Google perceberam, é que todas as datas estão na contagem da religião dominante no mundo, a cristã. Os dominantes fizeram todo mundo acreditar que só há um mundo possível, é aquele que eles ditam que é. Naturalizamos a contagem dos anos ou séculos tendo o início no nascimento do messias cristão, Jesus. Perceba como você está tão anestesiado que, como crianças no final do recreio, concorda em entrar para sala sem reclamar. Você voluntariamente serve docilmente o dominante sem nem perceber. É isso que Foucault chama de microfísica do poder. Você também não percebeu, distraído leitor, que, apesar de eu estar no Brasil, um país originalmente habitado por vários povos indígenas, cada um com sua língua, me considerar um brasileiro, e estar me dirigindo à outros brasileiros, estou escrevendo na língua do invasor genocida europeu, o português. Essa aberração evidente se dá, segundo Foucault, porque meu corpo foi adestrado ao longo da vida nos dispositivos escolares, sou dócil e não me oponho a dominação, me sujeitando voluntariamente.
O capitalismo é, exatamente como previsto por Foucault, ensinado na escola todos os dias. Com tal resoluta perseverança que, como água em pedra dura, tanto bate até que torna os corpos dóceis. Os alunos recebem notas por suas tarefas, alguns com estrelinhas. Como operários na fábrica, são avaliados pelo que produzem. Suas atitudes são premiadas se semelhantes à desejadas pelos opressores, ou punidas se discrepantes. Aquele aluno que não consegue o desempenho desejado pelos dominantes, é classificado como refugo, e muitas vezes se exige que repita todos os processos do ano para aprender direitinho. Há uma competição entre as crianças, nunca silenciosa, para obter as melhores notas. No meio da manhã e no meio da tarde, uma pausa de vinte minutos para o “coffee break”. Tomam café com leite com bolo para aumentar a produtividade. Na disciplina de Educação Física, a competição capitalista é explicitamente ensinada, a exclusão é despudoradamente normalizada. Todos vão competir obedecendo todas as regras criadas pelos dominantes, mas só um vencerá. Qualquer desvio das regras é punido, muitas vezes perdendo o recreio ou mesmo a Educação Física, única disciplina que permite movimento corporal e a síntese de drogas endógenas que dão prazer. A competição e a consequente exclusão é ensinada como justa e até altruísta. Há que se resignar, os dominantes daquele microcosmos social, os professores, insistem em ensinar os dominados, as crianças, só há essa vida possível. Se o aluno não foi vencedor é porque não se esforçou o suficiente. A culpa do insucesso é do próprio indivíduo, exatamente a mesma conversa que o clero ensinava aos plebeus na idade média. O dispositivo escolar de adestramento de corpos quer alunos como Oscar Schmidt, servil e dócil aos desejos do dominante, com uma fé inabalável na competição como único modo possível de organização da sociedade. Não é preciso bater num Oscar, nem é preciso ameaçá-lo, ele exercerá uma servidão voluntária com paixão, como previu Étienne de la Boétie. Como previu Silvia Viana Rodrigues, ele passará por inúmeros rituais de sofrimento alegremente, como no programa BBB, contente por estar agradando os dominantes, vibrando com algum ganho parcial como ao fazer uma cesta ou ganhar um jogo, lutando para não ser eliminado do jogo. O jogo em si é uma atividade absolutamente alienada da realidade, mostrada na televisão como se estivesse flutuando no espaço. Oscar produzirá no seu corpo tantas drogas endógenas que o tornará uma máquina inspiradora para outros jovens, como eu naquela tarde de domingo em 1987, deprimido e entediado depois de tomar a droga exógena Nescau.
Observe que esse método de docilização de corpos funciona maravilhosamente, meus alunos todos querem ser Neymar, famoso jogador evangélico do futebol brasileiro. A esmagadora maioria não será. Nessa copa “do ano do senhor” de 2026, o Brasil foi autorizado a levar pelos dominantes da FIFA somente 26 jogadores. No último censo do IBGE em 2022, o Brasil tinha pouco mais de 203 milhões de habitantes, 98 milhões deles são homens. Se dividirmos esses 98 milhões de homens (a copa era masculina) pelos 26, a chance de algum brasileiro ir para a Copa do Mundo brilhar é de uma em 3.789.709. Isso a cada 4 anos, é claro. Esse ano, nenhum era, ou foi, meu aluno. Na verdade, isso nunca aconteceu. Estou no final de minha carreira como professor, o número de meninos que já foram meus alunos já está na casa dos milhares, mas nenhum nunca chegou nem perto de uma Copa do Mundo. É uma quimera ridícula. A exclusão é oceânica, no entanto, a fé de meus alunos que um dia serão incluídos e estarão lá é inabalável! Exatamente a mesma ilusão que as crianças têm de que serão ricas. Me contam alegremente quantas Ferraris terão, imitando os hábitos do jogador de futebol português Cristiano Ronaldo, fervoroso católico. Se não der certo os planos de meus alunos, se não ficarem ricos nem chegarem a jogar uma Copa do Mundo, pelo menos eles aprenderam, nos intervalos dos jogos na televisão, que a droga da cerveja ajuda a alegrar a miséria e esquecer que seus planos não deram certo. Outra alternativa oferecida aos pobres, também ensinada ostensivamente nos intervalos dos jogos, mas principalmente nos aplicativos de celular que estão nas mãos das crianças, são as bets, que vendem a mesma improvável salvação do futebol.
O capitalismo cria um mundo com uma desigualdade social abissal, no entanto isso é normalizado. Ninguém nem percebe que há algo errado, ninguém propõe mudanças ou se revolta. Ao contrário, a adesão às promessas capitalistas é voluntária e entusiasmada, todos se sujeitam. É tão natural como datar os anos a partir do nascimento de Jesus. Os cérebros da população estão sempre induzidos pelos dominantes a sintetizar drogas endógenas que mantém todo mundo esperançoso que sua vez há de chegar. É como a promessa da salvação cristã: aqui na terra o indivíduo sofre, mas no céu seus problemas acabarão. Parece um produto das Organizações Tabajara. “Humano, demasiado humano”, como diria Friedrich Nietzsche, filósofo ateu alemão, guru de Foucault, criticando as ilusões de salvação em alguma criação humana sujeita a falhas, paixões e instintos de sobrevivência. O capitalismo é um organismo vivo, e como qualquer ameba faz tudo que pode para sobreviver, um verdadeiro caldeirão borbulhante de carne e água morna, temperado com drogas de todos os tipos. e age sem precisar usar a força, mas sim ensinando as massas nas escolas, nos estádios e em programas de televisão o que se deve pensar. Sempre lembro do patrono da educação brasileira, segundo pensador mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo, o educador e filósofo católico, Paulo Freire (o primeiro é, segundo o Google, exatamente Michel Foucault e o terceiro Karl Marx, para quem está curioso): “Se a educação não for libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor.” A educação não é libertadora, em nenhum lugar do mundo. Mas, há esperança, penso sempre que a humanidade anda a passos de formiguinha e sem vontade, como nos ensina o compositor brasileiro e “programaticamente anti religioso”, segundo ele mesmo, Lulu Santos.
Michel Foucault não fala em nenhuma de suas obras sobre os esportes serem também um dispositivo de exercício de poder, no entanto, atente caro leitor, para os seguintes fatos que os qualificam como tal: Os praticantes de esportes estão sempre vigiados por árbitros ou técnicos (na escola são os professores de Educação Física). Condutas desviantes da regra inventada pelo dominante são punidas (não pode tocar a bola com a mão no futebol, ou tocar duas vezes na bola no voleibol). Os corpos mais adestrados na atividade são premiados (realização de campeonatos, medalhas, etc.). As condutas são repetitivas e seguem horários rígidos (não pode segurar a bola mais de dois segundos com as duas mãos e deve-se mantê-la quicando no chão para os deslocamentos em quadra no basquetebol). Há um controle total dos movimentos dos corpos para maximizar a produção em direção a um objetivo escolhido pelo dominante (Oscar Schmidt treinava cem arremessos à cesta por dia para ser conhecido como mão santa), o objetivo da atividade é absolutamente alienado da realidade (uma cesta presa na parede no basquetebol, ou uma goleira no fundo do campo de grama no futebol). Há uma normalização dos objetivos serem estapafúrdios (não deve haver questionamentos do porquê se deve se esforçar tanto para atingir objetivos tão sem sentido como arremessar uma bola numa cesta alta do chão). Finalmente, um dispositivo de exercício de poder tal qual descrito por Foucault é sempre criado para atender a uma urgência social. E havia uma urgência enorme percebida pelos dominantes da época que ameaçava seriamente seu controle do poder. Alguns fantasmas assombravam os poderosos no final do século XIX. Uma série de ideias perigosas começaram a surgir na cabeça dos dominados. Para se manter no poder, os opressores da época tiveram que criar novos dispositivos urgentemente, aqueles existentes já não davam conta da altíssima demanda social. Principalmente duas obras abalaram o poder exercido pela elite. Primeiro foi a obra dos filósofos ateus alemães Karl Marx e Friedrich Engels, O Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848, que exortava os trabalhadores das fábricas a se unirem para tomar o poder e abolirem o sistema capitalista de produção. Para piorar, o naturalista agnóstico inglês Charles Darwin, no seu livro “A Origem das Espécies”, de 1859, tirava o poder da criação das mãos de qualquer deus e sugeria sua inexistência. Sim, os esportes são um dispositivo de exercício de poder para adestrar corpos e amansá-los.
Não vou voltar às drogas nem às crianças da pracinha na escola, acho que já ficou claro como os esportes e as competições são um instrumento de manutenção do “status quo”. Meu esforço com esse texto e esse Blog é debater assuntos que considero importantes e caminham na direção oposta à da virtude que gostaria de subverter. É esse meu objetivo. Uma última citação que me parece pertinente para nossa reflexão, da recentemente falecida escritora taoísta estadunidense Ursula Kroeber le Guin que pensava muito como eu: “Vivemos no capitalismo. Seu poder parece inescapável. O mesmo parecia ocorrer com o direito divino dos reis. Qualquer poder humano pode ser resistido e transformado por seres humanos. A resistência e a mudança frequentemente começam na arte — e, muito frequentemente, na nossa arte: a arte das palavras.”
P.S.: Oscar Schmidt, recentemente falecido, concorreu a senador em 1998 pelo partido PPB, atual Progressistas, partido mais à direita da época, liderado pelo corrupto Paulo Maluf, político que o povo conhecia como “rouba mas faz”. Seu plano era um dia ser presidente da república. Em entrevistas pouco antes de sua morte, Oscar declarou apoio total a Jair Bolsonaro, outro político corrupto e de extrema direita, propagador de ódio, atualmente preso em regime fechado por tentar dar um golpe de estado. O jogador de futebol Romário conseguiu se eleger senador em 2014 e se reeleger em 2022 pelo PL, mesmo partido de Bolsonaro. Neymar é outro que declarou apoio a Bolsonaro. Os legisladores têm corpos dóceis.
P.S.2: Trecho da música “Censor” da banda de Punk Rock gaúcha OS REPLICANTES:
“Vocês querem me fazer acreditar
Que eu tenho liberdade pra criar
Mas esses anos todos me deixaram meio cético
E eu fui aprendendo a ser meio eclético”





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